Economia

O eu dos outros

Jun 27, 2026 IDOPRESS

Espelho — Foto: Shutterstock

Volta e meia completos estranhos dirigem-se a mim para contestar o que acreditam que eu penso sobre um determinado assunto. Algumas pessoas fazem-no de forma gentil,outras com inacreditável brutalidade,animadas por um terrível ódio e indignação. Há quem me atribua ideias que jamais defenderia,intenções que nunca me ocorreram,frases que não escrevi — eventualmente,romances inteiros.

No início tentava defender-me. Certa ocasião,numa longa viagem aérea,fui reconhecido pelo passageiro ao lado.

— Você não é aquele palhaço?!

E logo me atacou,enterrando na minha alma espantada uma série de insultos afiados,tudo porque eu teria dito isto e aquilo a um determinado jornal. Neguei. Não,eu não pensava assim. O homem espetou-me no peito o indignado dedo indicador:

— Pensa,pensa,palhaço! Só não sabe que pensa!…

Hoje já não me defendo. Escuto com curiosidade. Afinal,quem sou eu para contradizer desconhecidos que me conhecem tão intimamente?

Só porque eu sou eu não significa que me conheça. Os meus inimigos íntimos,pelo contrário,conhecem-me admiravelmente. Não precisam conviver comigo,nem ler as crônicas que escrevo para este jornal,muito menos os meus livros. Basta-lhes passar os olhos por uma frase breve,retirada do contexto; assistir aos cinco primeiros segundos de um vídeo; escutar o comentário áspero do amigo de um amigo.

Antigamente,para conhecer um homem,era preciso jantar com ele,viajar na sua companhia,jogar cartas,passar noites partilhando cervejas,piadas,confissões. No mínimo,frequentar a mesma barbearia.

Hoje basta segui-lo no Instagram.

Com isto,venho descobrindo que,como Fernando Pessoa,escondo em mim um sem-número de personalidades. Todas,graças a Deus!,com opiniões fortes e originais. O mais curioso é que enquanto uns me acusam de uma qualquer heresia,outros acusam-me da heresia oposta. Ou seja,não apenas sou multidões,como sou também multidões contraditórias.

Suspeito que a nossa época resolveu um dos grandes problemas da filosofia. Durante séculos os homens perguntaram-se:

— Quem sou eu?

A resposta revelou-se afinal muito simples: basta consultar as redes sociais.

Existem hoje milhares de especialistas em identidades alheias. São pessoas de extraordinária competência. Conseguem determinar as nossas opiniões políticas a partir de uma simples fotografia; a nossa vida íntima a partir de um adjetivo distraído; as nossas intenções mais profundas através de uma vírgula mal colocada. Alguns,mais talentosos,descobrem até as teses que defenderemos amanhã.

Conheço desconhecidos que sabem exatamente o que penso sobre questões tão complexas como a situação na Palestina,o aborto,a inteligência artificial,o aquecimento global,a metafísica do impedimento e a melhor forma de preparar bacalhau. Enquanto eu hesito,duvido e,muitas vezes,me contradigo,estes meus procuradores espirituais mostram-me ao mundo com uma formidável coleção de firmes convicções bizarras.

Esta ideia me tranquiliza. Aos 65 anos começo a cansar-me de ser eu. É um ofício difícil. Felizmente,estes filantropos estão dispostos a desempenhá-lo por mim. A todos eles deixo aqui a minha infinita gratidão.