
Dr. Antonio Egidio Nardi,novo presidente da Academia Nacional de Medicina,fala sobre pânico e depressão. Foto Ana Branco / Agencia O Globo — Foto: Ana Branco / Agencia O Globo
GERADO EM: 10/04/2026 - 16:24
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De repente,parece que o mundo descobriu a ansiedade. E que só recentemente,na aceleração da vida moderna,passamos a conviver com seus sintomas. Mas,redes sociais e excesso de estímulos à parte,as raízes desse transtorno — e da sua manifestação aguda,o pânico — remontam à Grécia Antiga. Quem afirma é o psiquiatra Antonio Egidio Nardi,conhecido por suas pesquisas pioneiras sobre síndrome do pânico no Brasil.
Recém empossado presidente da Academia Nacional de Medicina (ANM),Nardi trata também de outros mitos,como o de que há sempre uma causa emocional para transtornos como a ansiedade e a depressão. Ele destaca as origens genéticas desses quadros e a influência de ainda pouco compreendidos processos inflamatórios do cérebro que "bagunçam" nossos neurotransmissores.
Na entrevista a seguir,o especialista,que é fundador do Laboratório de Pânico & Respiração e do Ambulatório de Depressão Resistente do Instituto de Psiquiatria da UFRJ e editor-chefe do Brazilian Journal of Psychiatry,fala desses temas,da importância da respiração e da atividade física para a saúde mental e do estigma em torno da eletroconvulsoterapia.
Vivemos em uma era com índices crescentes de ansiedade e depressão. Seu tema de estudo,o pânico,tem a ver com esse cenário?
Sem dúvida. O transtorno de pânico é um quadro agudo de ansiedade. A pessoa está bem,distraída,estudando,trabalhando,dormindo,e de repente tem um ataque. Em geral,ele dura em torno de 20 a 30 minutos. Os primeiros dez são os piores. A pessoa tem falta de ar,tremor,onda de frio,de calor,tontura,palpitação,pressão no peito,e a sensação de que vai morrer,de que está perdendo o controle.
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E como esses sintomas costumam ser interpretados?
Eles fazem com que a pessoa se sinta muito mal e muitas vezes pense que é um infarto,um acidente vascular cerebral. Na maioria das vezes ela corre para uma emergência. Aí não encontra nada,talvez um pouco de palpitação. E recebe algum remédio tranquilizante.
E o que ocorre depois desse primeiro episódio?
O pânico se caracteriza por repetições. A pessoa vai ter ataques recorrentes. Começa a desenvolver fobias do próximo ataque,evitar lugares ou situações onde acha que pode passar mal e não ter um socorro imediato. Locais de difícil saída,como multidões,túneis. Nos casos mais graves,a pessoa deixa até de sair de casa.
Esse é um problema moderno?
O transtorno de pânico é conhecido desde a Grécia Antiga,que é de onde vem seu nome. Pela lenda,o deus Pan era muito feio,metade animal,metade homem,e muito brincalhão. Ele andava pelas florestas e pulava na frente dos viajantes. Então,as pessoas levavam um susto,tinham um “ataque de pânico”. E desenvolviam algo que se fala até hoje,que é a agorafobia. A tradução literal é “medo de mercado”,mas trata-se da fobia de multidões,de lugares abertos,de passar mal de repente.
E quando começou a ser identificado como um transtorno de ansiedade?
Não era interpretado assim até a década de 1980. Era mais associado à depressão. Na verdade,é comum que pessoas com transtorno de pânico tenham em algum período da vida episódios depressivos. A primeira descrição médica pânico foi de um médico americano,Jacob Mendes da Costa,que diagnosticou o transtorno em soldados na Guerra Civil americana. Na época ele chamou de síndrome do coração irritável,porque notava a palpitação e falta de ar.
E por que ainda não se falava em ansiedade?
Porque esse conceito de ansiedade,que é tão popular hoje,não existia naquela época. É algo recente,do final do século XIX,início do século XX. Não havia essa ideia da ansiedade como uma expectativa para o futuro.
A ansiedade,nesse sentido,pode ser positiva?
Nós podemos ficar ansiosos porque vamos entrar de férias ou porque vamos pagar uma conta e não temos dinheiro. Mesmo essa ansiedade adaptativa,como a das férias,pode ter sintomas,como aumento ou diminuição do apetite,do sono,tremores,ruborização. A ansiedade é uma função mental útil. Quando eu me preocupo porque vou dar uma aula,eu preparo essa aula. Só que ela pode ir aumentando e se tornar patológica. Pessoas cronicamente ansiosas estão sempre no limite,sobressaltadas,esperando o pior.
Qual o tratamento mais indicado para quadros de ansiedade?
Ele envolve tanto medicamentos,seja antidepressivos ou o que se chama de calmantes,como a psicoterapia cognitivo-comportamental,que ajuda com exercícios respiratórios,o controle dos pensamentos catastróficos.
Como a respiração pode nos acalmar?
Exercícios respiratórios podem ajudar a pessoa a não entrar em uma crise de pânico ou a tirá-la desse estado. Em muitos,o gatilho é hiperventilar ou hipoventilar,não respiram bem e isso pode levar a um ataque. Pacientes com asma,por exemplo,têm mais crises de ansiedade. A respiração controlada mostra ao seu corpo que você está no controle.
E a terapia cognitivo-comportamental (TCC)?
No transtorno de pânico,depois do primeiro episódio,os seguintes podem ser induzidos pelo pensamento ou por sensações físicas. Se pessoa sente uma palpitação ou qualquer alteração física normal e já interpreta aquilo como um ataque de pânico,começa a de fato ter um. A TCC ajuda a controlar esses pensamentos. É uma espécie de conversa interna.
Mas isso ajuda a chegar nas causas?
É um mito que sempre existe uma causa. O próprio Freud descreveu casos que hoje a gente decreta como transtorno de pânico e disse que a psicanálise não ajudava aquelas pessoas. Não há nenhuma prova sistemática científica de que exista um gatilho. O que a gente vê na evidência é que há o fator genético.
É muito comum haver predisposição genética?
Sim. Todo psiquiatra trata de várias pessoas da mesma família com transtorno de pânico. Se a pessoa tem um parente de primeiro grau com pânico ou depressão,há uma chance muito maior de vir a ter o quadro na comparação com a população em geral.
Qual o papel da atividade física nesses transtornos?
É a melhor coisa para o cérebro. No transtorno de ansiedade,a atividade física não só melhora a função cerebral como controla aquele pensamento que mencionei. Se eu faço ginástica,se eu corro,se eu nado e me sinto bem,eu não penso que não devo ter uma doença do coração ou problema respiratório. Dá um reforço cognitivo importante para aquela pessoa se ver como alguém saudável.
Fala-se muito em neurotransmissores nos transtornos psiquiátricos. Qual é afinal a manifestação desses quadros no cérebro?
Hoje,sabemos que tanto o pânico quanto a depressão são processos inflamatórios cerebrais. Essas inflamações ocorrem principalmente em um grupo de células chamada microglia. Esse processo faz com que haja uma alteração no eixo hipótalomo-hipófise adrenal (sistema de resposta ao estresse do corpo). Quando ele começa a não funcionar adequadamente,você recebe um feedback negativo. Na situação de luta ou fuga do cérebro,geralmente depois vem um relaxamento cerebral,o corpo percebe que não precisa lutar nem fugir. Mas quando esse mecanismo passa a não funcionar,o resultado é um processo inflamatório cerebral que resulta numa alteração dos neurotransmissores.
A depressão não seria,portanto,uma falta de serotonina?
Nunca foi provado falta de serotonina na depressão. O que ocorre é um mau funcionamento dos neurotransmissores. E a atividade física,o remédio e a própria terapia alteram a função cerebral,melhorando a resposta a eles,diminuindo essa inflamação,criando novos receptores.
Isso quer dizer que podemos fazer um exame de marcadores inflamatórios para diagnosticar essas pessoas?
No Instituto de Psiquiatria do UFRJ,onde trabalho,existe um laboratório de pânico e respiração. Lá,já fizemos testes de marcadores inflamatórios em pacientes com pânico e há uma alteração evidente. Isso não significa que exista um método para diagnóstico,mas serve para fins de pesquisa. Existe um processo inflamatório que pode ser corrigido com remédio,psicoterapia e atividade física.
A ciência sabe o que provoca essa inflamação?
Não se sabe. Podem existir fatores genéticos que facilitem essa alteração e outras variantes que podem ainda vir a ser conhecidas. Mas não é um fator simplesmente emocional. Todos temos problemas emocionais e nem todo mundo tem pânico. Essa parcela fica em torno de 2% da população mundial,em países pobres ou ricos,em vários recortes. Isso sugere que há uma origem genética muito forte.
Hoje se fala de um suposto excesso de medicalização desses transtornos. Qual é o papel exato do medicamento quais são seus limites?
O medicamento psiquiátrico é um avanço da medicina. Até a década de 1950,ou seja,pouco mais de 75 anos atrás,não existia nenhum medicamento eficaz em psiquiatria. Era um horror: as pessoas eram hospitalizadas,às vezes pela vida inteira. Hoje a psiquiatria é uma especialidade ambulatorial. Mesmo em casos graves,como um surto psicótico,a pessoa é internada dois,três dias. Então,os medicamentos mudaram a assistência psiquiátrica no mundo inteiro. Mas existe um mito de que eles curam as doenças. Não curam,apenas controlam os sintomas,seja de esquizofrenia,transtorno bipolar,pânico,depressão. A doença continua existindo,o remédio permite que a pessoa viva de forma adequada.
Dá para prever qual será o impacto de um remédio em um paciente?
Eles não têm o mesmo efeito em todas as pessoas. Um antidepressivo pode ser ótimo para um e não ajudar nada outra pessoa. Não existe ainda hoje um método para saber qual o melhor antidepressivo para aquela pessoa sem que que ela tome o remédio. Há hoje um mercado de venda de exames que mostrariam qual o melhor antidepressivo para alguém,mas isso não funciona. O que esses exames mostram é como a pessoa metaboliza seus antidepressivos,mas isso não tem nada a ver com resposta terapêutica.
Esperamos muito desses medicamentos?
Existe o problema do marketing dos laboratórios,que tendem a vender a imagem de pílulas da felicidade. Sempre que sai um novo antidepressivo,parece que vai resolver todos os problemas da humanidade. E isso incentiva esse mito de que vou tomar um antidepressivo e o mundo vai ficar colorido. Não é assim.
A depressão resistente a remédios é algo real?
A depressão atinge cerca de 12% da população em algum momento da vida. E delas,10% não melhoram com nada. Uns 40% precisam tomar um segundo ou terceiro para potencializar o efeito e ter resultado. Então,o tratamento da depressão é algo complexo.
Algumas propostas para tratar a depressão resistente foram testadas nos últimos anos,como o marca-passo cerebral e a terapia com psicodélicos. São promissoras?
O marca-passo ainda está em nível de pesquisa. É um tratamento invasivo,cirúrgico,e não existe resposta garantida,não acredito que vá se popularizar. Quanto aos psicodélicos,eles estão na moda,mas já nós já tivemos essa onda antes,na década de 1960. São substâncias que muitas vezes trazem apenas um benefício passageiro e têm muito risco de efeito colateral psicótico.
O que demonstra eficácia,então?
O tratamento para depressão grave mais eficaz ainda é o eletrochoque,que hoje é chamado de eletroconvulsoterapia. Mas ele tem um estigma enorme. Algumas pessoas acha que é uma tortura,algo ultrapassado. Na verdade,é um tratamento muito elitista hoje em dia,porque é encontrado mais em clínicas particulares,com pacientes mais bem informados,ou em hospitais universitários como o Instituto de Psiquiatria do UFRJ. A taxa de sucesso dela para depressão resistente é boa.
Quais serão suas prioridades na presidência da ANM?
A academia foi fundada por Dom Pedro I,em 1829,então estamos próximos dos 200 anos de existência. Ela representa o que há de mais sensato na medicina. São médicos de vários lugares do Brasil e diversas especialidades,todos científica e humanisticamente conectados para ajudar o Estado brasileiro. Nossas maiores bandeiras hoje incluem o ensino médico,que vem passando uma crise. Nós defendemos um exame de proficiência durante ou ao fim do curso médico,o chamado “OAB dos médicos”. Outra questão importante é o negacionismo em relação às vacinas. Reforçamos seu papel de importância social fundamental. Também defendemos o SUS,reconhecendo seus problemas. Queremos ajudá-lo a melhorar,fornecendo suporte científico. E precisamos tratar da inteligência artificial na medicina,que veio para ficar.