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UE mira em 4 projetos de minerais críticos no Brasil: bloco quer reduzir dependência da China

Jun 16, 2026 IDOPRESS

Planta piloto da Brazilian Nickel,no Piauí — Foto: Douglas Magno/Nitro

RESUMO

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GERADO EM: 15/06/2026 - 16:56

UE Busca Reduzir Dependência da China com Investimentos Minerais no Brasil

A União Europeia busca reduzir sua dependência da China por minerais críticos,essenciais para setores estratégicos como carros elétricos e energias renováveis,e está focada em projetos no Brasil. A visita do comissário Jozef Síkela visa aproximar o bloco do Brasil,mirando investimentos e cooperação. O projeto Colossus em Poços de Caldas é prioritário,com investimento de US$ 356 milhões previsto pela Viridis. A UE vê a parceria como estratégica para alcançar autonomia e competitividade.

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A União Europeia (UE) entrou na corrida pelos minerais críticos na América do Sul para reduzir sua dependência da China e fazer frente aos EUA. Já há quatro projetos em que o bloco está de olho no Brasil com os quais pretende assegurar fornecimento de insumos para setores estratégicos,como carros elétricos e energias renováveis. A ideia é firmar um memorando de entendimentos com o governo brasileiro,a exemplo do que já foi feito com Argentina e Chile,abrindo caminho para acordos de cooperação e investimentos na área.

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Para dar os primeiros passos nesse sentido,o comissário de Parcerias Internacionais da UE,Jozef Síkela,chega ao Brasil no próximo dia 18. Ele será acompanhado de representantes do Banco Europeu de Investimentos e visitará ao menos um dos quatro projetos tidos como prioritários,o Colossus,da empresa australiana Viridis,em Poços de Caldas (MG),segundo fontes diplomáticas. É a primeira vez que Síkela vem ao Brasil.

O Colossus abriga reservas de terras-raras essenciais para a fabricação de ímãs usados em veículos elétricos,turbinas eólicas,sistemas de defesa e equipamentos de alta tecnologia. Esses elementos,assim como lítio,níquel e cobalto,são considerados cruciais para determinadas cadeias produtivas e sua oferta depende de poucos fornecedores,daí serem chamados de minerais críticos. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras-raras do mundo.

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De acordo com estudo de pré-viabilidade,a Viridis prevê investir US$ 356 milhões no Colossus. A previsão é iniciar a operação no primeiro semestre de 2028. Segundo os diretores executivos Klaus Petersen e José Marques Braga,também está em estudo o refino de óxidos de terras raras e a reciclagem de ímãs,para a construção de "uma cadeia de suprimentos mais integrada e verticalizada no país".

A visita do comissário da UE a Poços de Caldas é vista pela diplomacia brasileira como uma sinalização política de que o bloco quer se aproximar do Brasil,embora não se espere que seja firmado algum documento concreto durante a visita.

Minerais críticos — Foto: Criação O Globo

O pano de fundo dessa aproximação é a percepção pelos europeus de que a região está ficando para trás na corrida tecnológica e a busca da UE por autonomia,segurança e competitividade. Esse tem sido o mantra dos representantes do bloco em suas conversas com diplomatas brasileiros em busca de "cadeias produtivas sustentáveis".

No Ato Europeu de Minerais Críticos,lançado em 2023,a UE definiu,entre outras metas,que ao menos 40% de seu consumo anual deve ser processado em unidades localizadas nos países integrantes do bloco e que no máximo 65% do consumo anual da UE para cada uma dessas matérias-primas poderão vir de um único país de fora da região. Tudo isso até 2030.

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Hoje,a China concentra 70% a 90% do processamento global de minerais críticos. A UE sabe que,sozinha,não consegue alcançar aqueles objetivos e que precisa de parceiros confiáveis. É aí que entra o Brasil.

- É absolutamente essencial trabalharmos com parcerias,adicionando valor aos parceiros. Podemos oferecer infraestrutura e tecnologia. Temos muito interesse no Brasil - disse ao GLOBO Joan Canton,chefe da Unidade de Descarbonização,Mobilidade e Materiais Críticos da Comissão Europeia,durante evento em Bruxelas.

Do lado do brasileiro,a aproximação com a UE é vista como uma possibilidade para desenvolver a cadeia produtiva de minerais críticos e construir refinarias no Brasil que possam processar a matéria-prima,agregando valor aos produtos e criando empregos. Ou seja,o governo não quer que o apoio europeu se limite à extração dos minerais.

A UE procura demonstrar sensibilidade à demanda brasileira. Classificou a Refinaria São Miguel Paulista (SP),no bairro de mesmo nome,localizado na zona leste de São Paulo,como projeto estratégico,o que significa que a empresa pode receber apoio financeiro europeu. Ao lado do Colossus,a unidade integra a lista das quatro prioridades europeias no país na área e minerais críticos,segundo fontes diplomáticas.

Entrada da Refinaria São Miguel Paulista,em São Paulo. Projeto foi considerado estratégico pela União Europeia — Foto: Divulgação

A refinaria pertence à Jervois,controlada por um fundo americano. Ela terá capacidade de produzir 12 mil toneladas de níquel refinado,além de 2 mil toneladas de cobalto por ano. É a única refinaria de níquel classe 1 e cobalto na América Latina e deve retomar a operação em 2027,após investimento de R$ 500 milhões.

O empreendimento chegou a operar por mais de 30 anos,mas seu antigo dono,a Votorantim,o desativou,quando suas minas se exauriram.

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— Inicialmente,vamos trabalhar com níquel e cobalto importado. Ainda não temos contratos de fornecimento. Uma das ideias,ao nos aproximarmos da UE,é que aquilo que não for absorvido pelo Brasil seja direcionado ao mercado europeu — afirma o presidente da Jervois Brasil,Carlos Braga.

O projeto da britânica Brazilian Nickel em Capitão Gervásio Oliveira,no Piauí,é outro em que a UE está de olho. A produção anual prevista é de aproximadamente 28 mil toneladas de níquel e mil toneladas de cobalto nos primeiros dez anos de operação. A primeira produção comercial está estimada para 2029.

O projeto,com investimento estimado em US$ 1,4 bilhão,produzirá um produto intermediário na cadeia do níquel que precisa ser refinado,mas como não há refinaria em operação no Brasil,deve ser exportado. A Brazilian Nickel já tem acordos de fornecimento com empresas estrangeiras como a americana Westwin e a francesa EMME.

Essa é uma das razões de por que a UE quer agilizar as tratativas de um memorando com o Brasil. Inicialmente,o bloco havia eleito nove projetos de interesse para sua estratégia e reduziu para quatro. Todos são de empresas estrangeiras e alguns deles já têm contratos de fornecimento para outros países,incluindo os que são vistos pela UE como rivais no mercado de minerais críticos.

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Além da Brazilian Nickel,que já tem contrato de suprimento com uma companhia americana,a AMG,que tem minas de lítio e tântalo em Minas Gerais e que também aparece na lista de prioridades da UE,fornece essas matérias-primas para mercados internacionais. O lítio é exportado para a China e de lá é transportado para a Alemanha,onde é usado na fabricação de baterias para a indústria automotiva. O tântalo vai integralmente para o Japão.

A empresa,com sede nos EUA e na Holanda,tem instalações em dez países na área de minerais críticos. No Brasil,além das minas,faz a primeira etapa industrial de concentração daqueles minerais e está avaliando investir em uma unidade de processamento de hidróxido de lítio,segundo o chefe de Relações com Investidores da companhia,Thomas Swoboda.

O governo Lula,porém,não parece estar com tanta pressa quanto a UE. O Brasil ainda discute seu marco regulatório para minerais críticos e,por isso,ainda há lacunas de como os projetos devem ser estruturados. Essa é uma das razões por que não se espera a assinatura de um memorando já nesta semana.

Além disso não está claro se a UE vai de fato dispor de recursos para participar dos projetos em que tem interesse,uma vez que tem sido pressionada para ampliar o orçamento para segurança desde o início da guerra na Ucrânia.

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O bloco não quer entrar sozinho num eventual financiamento de projetos de minerais críticos,segundo fontes diplomáticas. Busca mobilizar capital de bancos de desenvolvimentos locais,como o BNDES. No mix de capital podem entrar também recursos de agências de fomento nacionais de países europeus.

O projeto Colossus,por exemplo,já foi elegível para financiamento por três agências internacionais de crédito à exportação: a Bpifrance Assurance Export,ligada ao governo da França,e a Export Development Canada,do governo canadense,e a Export Finance Australia. A iniciativa também foi selecionada para receber recursos de BNDES e Finep.

Já a AMG recebeu apoio do governo alemão para expansão de atividades,assim como do governo americano.

O apoio financeiro da UE aos projetos brasileiros,se concretizado,será feito no âmbito do Global Gateway,estratégia lançada em 2021 com o objetivo de mobilizar até € 300 bilhões em investimentos,incluindo recursos públicos e privados,em setores como digitalização,clima e energia por meio de parcerias internacionais. Jozef Síkela,o comissário da UE que vem ao Brasil,é o principal responsável por essa estratégia.

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As conversas com o Brasil se dão em nível bilateral,mas nada impede que evoluam para que o tema seja foco do acordo UE-Mercosul,que entrou em vigor provisoriamente em 1 de maio. Neste caso,o tratado tem uma cláusula que permite ao Brasil elevar impostos de exportação sobre minerais,com o objetivo de exercer algum controle sobre as reservas. Se isso acontecer,no entanto,é assegurado à UE tratamento preferencial,com uma espécie de desconto sobre a tarifa.