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Mostra no Rio reúne trabalhos de Daniel Senise desde o ano 2000: 'Tem obras que levei dez anos para resolver. Em outras, o que mudou foi meu olhar'

Jul 7, 2026 IDOPRESS

Daniel Senise no Paço Imperial,durante montagem da exposição 'Os dois lados da janela' — Foto: Guito Moreto

RESUMO

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O artista Daniel Senise retorna ao Paço Imperial após 32 anos. A exposição reúne cerca de 60 obras produzidas desde o ano 2000. A mostra apresenta trabalhos que passaram por anos de maturação no ateliê. O público poderá conferir peças inéditas e empréstimos de coleções privadas. Entre os destaques está uma obra criada com carpetes queimados do Teatro Villa-Lobos. A composição reflete sobre a história e as ruínas brasileiras. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.

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Na montagem de “Os dois lados da janela”,inaugurada no último sábado (4) no Paço Imperial,no Centro do Rio,uma antiga caixa de charutos Dona Flor cheia de lápis de cor,de cores,tamanhos e tempo de uso diferentes,fica aberta à disposição dos retoques mínimos que Daniel Senise faz nas composições em aquarela de “Vai que nós levamos as partes que te faltam” (2008). Uma das cerca de 60 obras que o artista reúne em sua primeira mostra institucional na cidade em mais de dez anos (a última foi “Quase aqui”,em 2015,no antigo Oi Futuro Flamengo,recém-rebatizado como Petrobras Futuros — Arte e Tecnologia),a tela de 10 metros de comprimento segue a prática com que o carioca radicado em São Paulo se notabilizou desde a década de 1990,a construção de imagens por meio da colagem de recortes,criados a partir de impressões monotípicas de superfícies ou por intervenção direta. Neste trabalho,as aquarelas pintadas por ele e cortadas como tacos de madeira reproduzem o corredor de seu apartamento no Rio,quando coladas juntas no suporte de alumínio. Os desgastes imperceptíveis (menos ao olho do artista) podem ser corrigidos com os lápis guardados na caixa de charutos que,diz o artista,pertenceu a seu pai.

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A mostra,que promove a volta de Senise ao Paço com uma individual após 32 anos,traz obras do ano 2000 para cá,incluindo empréstimos de coleções privadas,obras recentes e algumas que nunca tinham saído do ateliê — ele mantém o estúdio carioca,embora a maior parte da produção atualmente seja realizada em São Paulo. Alguns dos trabalhos permaneceram guardados por anos até receberem novas intervenções ou que o artista considere que estão em “um bom momento”.

— A obra não acaba. Algumas ficam prontas,mas algumas “desficam”. Nesse caso,se ainda estiver no ateliê,eu desfaço. Depois que sai não tem jeito. Mas não tem uma regra,cada artista tem seu território — observa Senise. — Tem obras aqui que levei cinco,dez anos para resolver. Em outras,o que mudou foi o meu olhar. Uma delas ficou uns dois anos no ateliê,um dia vi que não precisava mais mexer. Ela estava pronta,eu que não estava sabendo.

Vista geral da exposição 'Os dois lados da janela' — Foto: Guito Moreto

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Com curadoria de Pollyana Quintella,a mostra ocupa todas as salas do primeiro andar do Paço,agrupadas por aproximações não cronológicas das obras,passando por séries como “Livros”,“Prodrome” e “Biógrafo”. À revisão de carreira possibilitada pela mostra,soma-se o lançamento do livro publicado pela Cosac que percorre mais de três décadas de sua carreira (no dia 1º de agosto,às 15h,o artista participa de uma mesa com Pollyana e o professor e pesquisador de processo criativo Charles Watson). O título da exposição se relaciona à forma como o artista desafia a noção de enquadramento,sem delimitar o que está “dentro” e “fora” da obra.

— A janela é uma metáfora fundadora da pintura,ao menos da pintura ocidental. O quadro é pensado como uma janela aberta para o mundo,com a moldura delimitando automaticamente o que deve ser visto — contextualiza Pollyana. — O Daniel passou décadas desmontando essa fantasia,são obras em que “o fora” invade “o dentro”. A gente é constantemente convidado a encarar uma espécie de janela vazia. “Os dois lados da janela” aborda o que se vê aquém e além do enquadramento,uma questão que atravessa o trabalho dele.

Obras da exposição 'Os dois lados da janela' — Foto: Guito Moreto

Entre as séries selecionadas,está “Museus e galerias”,nas quais os recortes das capturas das superfície formam imagens de centros culturais pelo mundo,como o Dia Beacon (Nova York),a Bourse de Commerce – Pinault Collection (Paris),a Capela Scrovegni (Pádua,Itália) e o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) e o MAM do Rio,em uma das relações que Senise estabelece com a História da Arte em sua produção.

— Levei muitos anos para chegar nesses museus grandes,na Europa sobretudo. Minha relação com esses espaços e as obras,durante muito tempo,foi por reproduções (de livros). Quando você vê de perto,é como estar voltando,de alguma forma. E percebe que obras que achava grandes são pequenas,na verdade,ou o contrário — comenta o artista. — Não sou religioso,mas entrar em alguns desses museus é quase como entrar numa igreja. Embora,em algumas igrejas,não é preciso ser religioso para se entrar.

Incêndio no teatro

Em outra sala,Senise expõe intervenções em fotos de espaços onde captura algumas das monotipias,a exemplo da antiga Maternidade Matarazzo,na Bela Vista,que atualmente abriga o hotel Rosewood São Paulo,ou uma fábrica de pianos abandonada no Bronx,em Nova York. No centro,a obra “Arranjo em cinza e prata” (2019),de 7,50 metros de comprimento por 2,44 metros de altura,criada com a justaposição de pedaços do carpete queimados no incêndio do Teatro Villa-Lobos,em Copacabana,em 2011,que permanece fechado.

Daniel Senise e a obra 'Arranjo em cinza e prata' (2019),durante montagem da exposição — Foto: Guito Moreto

— O título é uma referência à tela do (James McNeill) Whistler (“Arranjo em cinza e preto nº1”,de 1871),em que ele pinta a sua mãe ao lado da composição. Aqui,sem a figura dela,você olha só a composição. É uma forma de tirar a carga do evento e trazer para a pintura — explica. — Tinha sido chamado para fazer um trabalho no Villa-Lobos e,um dia,acordei e o teatro havia pegado fogo. Guardei esses pedaços de carpete queimado e,mais tarde,apliquei sobre seis placas de alumínio espelhado. Fala sobre arte mas também conta uma história sobre o lugar. Sobre essas ruínas que o Brasil é tão bom em produzir.