
O Burj Khalifa em Dubai,Emirados Árabes Unidos — Foto: Ahmed Jadallah / Reuters
Este conteúdo faz parte da newsletter de Michel Alcoforado,enviada todas as sextas-feiras gratuitamente. Inscreva-se e receba diretamente no seu e-mail.
Reza a lenda que,assim que Lula assumiu a presidência do Brasil em 2003,Chico Buarque o chamou num canto e sugeriu que o político criasse o Ministério do Vai Dar Merda. Isto é,caberia ao ministro da pasta a tarefa de se meter em qualquer reunião e intervir com um: “Rapaziada,vai dar merda!”
Lembrei da anedota conversando com Arjun,meu motorista em Dubai. Rumo ao hotel,ele chamou minha atenção para o onipresente Burj Khalifa,o maior prédio do mundo; para o Burj Al Arab,primeiro hotel sete estrelas do planeta; e para o Dubai Mall,o maior shopping do mundo. Sem esquecer da nova roda-gigante,também a maior do tipo,com vista para a ilha artificial. Também absoluta. Sem respirar,ele emendou: o senhor precisa conhecer a piscina mais funda do mundo. Não é possível.
A Deep Dive Dubai tem mais de 60 metros de profundidade,15 milhões de litros de água filtrada e é duas vezes maior que qualquer outra piscina já construída pela Humanidade. Nas profundezas,os mergulhadores têm visibilidade perfeita e a chance de jogar totó,andar de bicicleta,levantar pesos de academia,brincar de bilhar,assistir a trechos de filmes e desvendar os mistérios de um império fictício abandonado.
Na linha do Ministério do Vai Dar Merda,anedota entre amigos,aqui em Dubai deve existir outra repartição,com cargo,vasto orçamento e funcionários. É o Ministério do Bota Mais. Tudo indica que há,dentro do departamento de obras ou infraestrutura,algum burocrata responsável por adicionar metros,largura e volume a toda e qualquer criação que se cogite fazer por aqui.
Continuar Lendo
Vamos fazer o maior prédio do mundo? Bota mais uns 250 metros acima do primeiro. Que tal um hotel cinco estrelas à beira-mar? Bota mais umas estrelas para não ter comparação! E uma piscina para mergulhadores? Bota mais o dobro de água! E assim segue.
É justamente por causa do exagero que Dubai,dos anos 1990 para cá,entrou no mapa,ganhou destaque e relevância. Sem os superlativos,seria apenas mais um emirado do Golfo. O projeto de Dubai,sonhado por seus líderes,dialoga com uma reflexão clássica de Marcel Mauss,um dos pais fundadores da antropologia. Em “Ensaio sobre a dádiva”,ele mostra que o prestígio nasce da capacidade de oferecer algo aos outros. Guardadas as devidas proporções,Dubai parece ter transformado essa lógica em política pública: em vez de presentes,oferece ao mundo obras e experiências que ninguém mais consegue igualar.
A estratégia de concretizar os sonhos grandiosos da Humanidade foi fundamental para que Dubai ganhasse um lugar de destaque no cenário global. Diferentemente dos vizinhos,em Dubai os investimentos pesados,garantidos pela cultura do Bota-Mais,fizeram do emirado um celeiro para grandes empresas,investidores,imigrantes e,recentemente,bilionários. Dubai já é a única economia da região a não depender do petróleo para existir.
Apesar dos esforços do Catar e da Arábia Saudita para acompanhar os exageros,Arjun não está preocupado com a concorrência. Ele recomendou que eu voltasse logo ao país para a inauguração do maior empreendimento imobiliário já criado por uma marca automotiva. São mais de 13 mil apartamentos com o emblema de uma fabricante de automóveis. Incorporando a lógica de Dubai e do Brasil,pensei: pode botar mais! Senão,vai dar merda.