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Relações tóxicas podem alterar o cérebro? Entenda os efeitos do estresse sobre memória e decisões

Jul 20, 2026 IDOPRESS

Segundo evidências científicas acumuladas,uma relação tóxica não é apenas um vínculo doloroso,mas uma fonte de estresse crônico. — Foto: Magnific (antiga Freepik)

RESUMO

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GERADO EM: 19/07/2026 - 21:43

Relações tóxicas: danos cerebrais permanentes e recuperação emocional

Relações tóxicas podem causar danos permanentes no cérebro,devido ao estresse crônico que afeta memória,autoestima e capacidade de decisão. Especialistas explicam que esses efeitos persistem pós-relacionamento,com alterações no hipocampo e amígdala. A imprevisibilidade emocional intensifica o apego,dificultando o rompimento. A recuperação envolve revalidação emocional e suporte psicológico.

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Ao longo dos anos,a arte já representou os vínculos tóxicos de diferentes formas e por meio de variados personagens. Quase sempre,porém,a partir de fora: mostrando o drama,os gritos,a ruptura e a despedida. O que raramente aparece é aquilo que ocorre internamente,na mente,no cérebro e no corpo,e as consequências de um estresse mantido durante meses,anos ou mesmo décadas.

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No filme "Quem tem medo de Virginia Woolf?",George e Martha se destroem em voz alta ao longo de uma noite. "Em O morro dos ventos uivantes",o dano é mais prolongado e frio,com o personagem principal,Heathcliff,devolvendo,com crueldade calculada,tudo o que sofreu em uma espiral que atravessa gerações. Na série "Pequenas grandes mentiras",a violência convive com a aparência de uma vida perfeita entre Celeste e Perry. Já em "Me conte mentiras",Stephen DeMarco manipula,seduz,chantageia e abandona com uma precisão que a série retrata de forma deliberadamente desconfortável.

Segundo evidências científicas acumuladas,mas uma fonte de estresse crônico,com efeitos mensuráveis sobre a memória,a atenção,a autoestima e a capacidade de tomar decisões. Essas consequências nem sempre desaparecem quando o relacionamento termina.

Nem toda relação difícil é tóxica. Conflitos,distanciamento emocional e períodos de crise fazem parte de qualquer vínculo. O que caracteriza uma relação nociva é a presença contínua de dinâmicas que corroem a identidade de uma das pessoas,como manipulação,controle,desvalorização sistemática,imprevisibilidade afetiva e invalidação emocional constante.

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Nem sempre há agressões físicas. Às vezes,não há sequer gritos. Existe,uma assimetria de poder que se instala e se normaliza ao longo do tempo.

— As pessoas que estão nesse tipo de vínculo muitas vezes são anuladas emocionalmente ou têm seus sentimentos e suas percepções invalidados — afirma a psicóloga Mercedes Conti Urabayen,especialista em terapia cognitiva. — Em alguns casos,podem experimentar formas de dissociação como mecanismo de defesa para suportar situações emocionalmente inaceitáveis.

A sensação relatada por muitas pessoas — “eu me sentia desconectada de mim mesma” ou “era como estar anestesiada” — tem uma explicação que vai além da metáfora.

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O cérebro sob ameaça constante

Quando uma pessoa vive em estado de alerta permanente,sem saber se a chegada do parceiro trará carinho ou uma cobrança,ou se o silêncio significa indiferença ou o início de um conflito,o sistema nervoso responde como diante de qualquer ameaça: ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e eleva os níveis de cortisol,o "hormônio do estresse".

Em doses moderadas e por um período limitado,essa reação é adaptativa. Quando se prolonga,pode se tornar prejudicial.

Estudos associam o estresse crônico à desregulação desse eixo e à produção excessiva de cortisol,o que pode ter consequências para o sistema nervoso central,incluindo efeitos sobre regiões importantes para a memória e o estado de humor.

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Uma dessas regiões é o hipocampo,fundamental para a formação e a consolidação das lembranças. A exposição prolongada a hormônios como o cortisol já foi relacionada a reduções do volume do hipocampo e a efeitos tóxicos sobre neurônios envolvidos no aprendizado e na memória.

Outra área é a amígdala cerebral,responsável por processar o medo e as respostas emocionais. Sob estresse crônico,tanto o hipocampo quanto a amígdala podem ser afetados. Alterações estruturais nessas regiões já foram observadas em animais submetidos repetidamente ao estresse social e também em seres humanos expostos a situações prolongadas de tensão.

Alejandro Andersson,diretor do Instituto de Neurologia de Buenos Aires,ressalta que essas alterações não são apenas uma metáfora clínica,mas podem ser verificadas.

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— As relações tóxicas provocam mudanças estruturais e funcionais mensuráveis no cérebro. O resultado é um cérebro em estado de alerta permanente,com deterioração da memória,dificuldade para raciocinar com clareza e uma resposta emocional hiperativada,o que torna muito difícil avaliar a situação objetivamente — explica.

Uma terceira região afetada é o córtex pré-frontal,responsável pelo julgamento,pelo planejamento e pela regulação emocional. Segundo Andersson,o estresse crônico pode provocar uma retração funcional e,com o tempo,estrutural dessa área,particularmente nas regiões ventromedial e dorsolateral.

Ao mesmo tempo,a amígdala hiperativada passa a exercer maior influência sobre o comportamento. O efeito é que a pessoa perde capacidade executiva para avaliar a própria situação. Não se trata simplesmente de “não querer enxergar”. O mesmo mecanismo que gera o perigo enfraquece a ferramenta neurológica que permitiria reconhecê-lo,formando um círculo que se retroalimenta.

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— Ao viver em estado de alerta constante,pode ocorrer uma maior ativação dos sistemas cerebrais ligados ao processamento do medo e da ameaça,o que se associa a uma maior propensão à ansiedade — acrescenta Conti Urabayen.

O estresse também distorce a maneira como as lembranças são registradas. Embora possa fortalecer a memória de determinados aspectos de uma experiência,ele dificulta a integração do contexto,resultando em recordações fragmentadas.

A amígdala hiperativada reforça memórias associadas ao medo,enquanto o hipocampo,inibido,perde parte da capacidade de contextualização.

O impacto não é apenas biológico. Ele se manifesta na vida cotidiana. Uma pessoa que passa horas pensando no último conflito ou antecipando a próxima discussão tem menos capacidade de prestar atenção ao restante.

— Emoções intensas afetam os processos cognitivos. Quando o estresse emocional é elevado,a atenção costuma ser capturada pela preocupação — afirma a psicóloga. — Uma pessoa hostilizada pelo parceiro pode passar grande parte do dia remoendo o que aconteceu ou antecipando novos conflitos. Com isso,sua disponibilidade de atenção diminui,e a informação à qual não se presta atenção dificilmente é registrada e armazenada na memória.

A isso se soma o controle,que,em muitas relações tóxicas,assume formas concretas e tecnológicas: mensagens constantes durante o horário de trabalho,pressão por respostas imediatas e ansiedade diante de um celular no modo silencioso.

— Mesmo quando a pessoa decide desligar o telefone,a preocupação com as possíveis consequências continua ocupando a mente e afetando seu desempenho — diz Conti Urabayen.

A armadilha da imprevisibilidade afetiva

Um dos mecanismos mais prejudiciais,e menos visíveis,de determinados vínculos tóxicos é a imprevisibilidade. A pessoa nunca sabe qual será o estado de humor do parceiro ou se receberá carinho ou distanciamento,aprovação ou crítica. Essa oscilação nem sempre é acidental e pode fazer parte de uma manipulação calculada.

— Estar em um relacionamento com alguém que hoje demonstra carinho e amanhã não gera um desgaste mental muito grande,levando à dependência emocional,à necessidade constante de confirmação e à sensação de que é preciso fazer tudo certo para garantir o afeto do outro — descreve a psicóloga. — É uma forma de viver em alerta e em ansiedade persistente.

A busca constante por validação não é capricho nem fraqueza. É uma resposta adaptativa a um sistema de recompensas imprevisível. O cérebro tende a se apegar mais ao que recebe de forma irregular do que àquilo que consegue antecipar. É um mecanismo semelhante ao que explica o desenvolvimento de determinados comportamentos compulsivos.

Andersson chama esse processo de “reforço intermitente”: a alternância imprevisível entre maus-tratos e afeto,punição e recompensa.

— É justamente o padrão que mais intensamente ativa e desregula o sistema mesolímbico dopaminérgico — afirma.

Segundo ele,trata-se do mesmo princípio que torna as máquinas caça-níqueis viciantes: a imprevisibilidade da recompensa sensibiliza o núcleo accumbens e gera uma busca compulsiva pelo estímulo,mesmo quando ele é prejudicial.

Em termos neurobiológicos,acrescenta o especialista,um vínculo marcado por esse reforço intermitente pode provocar alterações nos receptores de dopamina comparáveis às observadas em dependências químicas. Isso ajuda a explicar por que sair de uma relação dessa natureza não é uma simples decisão de vontade. O processo pode envolver uma experiência semelhante a uma abstinência.

Um estudo de Adelle Forth e pesquisadores da Universidade Carleton,no Canadá,publicado em 2021,analisou os efeitos sobre a saúde física e mental de 457 pessoas que haviam mantido relacionamentos com indivíduos com traços psicopáticos.

As vítimas relataram uma ampla variedade de consequências negativas — emocionais,biológicas,comportamentais,cognitivas e interpessoais. A intensidade dos traços psicopáticos e a adoção de estratégias pouco saudáveis para lidar com a situação foram associadas a sintomas mais graves de transtorno de estresse pós-traumático e depressão.

O fenômeno,no entanto,não se limita a relações com pessoas com psicopatia. Décadas de estudos mostram que conviver com um parceiro violento ou controlador contribui significativamente para piores indicadores de saúde mental. Entre as consequências mais frequentes estão depressão,ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático.

Outro estudo,realizado ao longo de cinco anos pelas pesquisadoras Julia Richter e Christine Finn,com mais de mil casais,encontrou uma relação recíproca entre autoestima e conflitos percebidos no relacionamento. Conflitos prolongados e estilos disfuncionais de interação foram associados à queda da autoestima ao longo do tempo.

As consequências após o fim

Um dos aspectos mais subestimados do dano provocado por uma relação tóxica é sua persistência. Muitas pessoas que conseguem encerrar o vínculo esperam que,com o afastamento,tudo volte rapidamente ao normal. Nem sempre é assim.

— Mesmo depois do fim da relação,os efeitos costumam ser duradouros — alerta Conti Urabayen. — É frequente observar uma redução da autoconfiança e o medo de entrar novamente em uma relação semelhante. Permanece uma sensação de fragilidade e de falta de recursos para enfrentar um novo vínculo.

Ao tentar conhecer outra pessoa,acrescenta,pode surgir uma ansiedade latente e o receio de reviver as mesmas situações.

Entre as consequências mais persistentes estão a falta de autoconfiança,a sensação de vulnerabilidade e a dificuldade de voltar a confiar em alguém. Não se trata necessariamente de paranoia,mas de uma resposta aprendida diante de um ambiente que foi sistematicamente imprevisível ou prejudicial.

Andersson acrescenta uma explicação biológica para essa persistência. Após sair do vínculo,muitas pessoas podem experimentar o que ele descreve como uma “síndrome de abstinência neurobiológica”,com ansiedade,insônia e busca compulsiva pela pessoa que provocou o dano,mesmo quando existe plena consciência do sofrimento vivido.

Segundo ele,isso não representa fraqueza nem contradição psicológica,mas o funcionamento de um sistema de recompensa que foi desregulado.

A amígdala cerebral também não retorna facilmente ao estado anterior. Ela pode permanecer com um limiar de ativação mais baixo,tornando-se sensibilizada.

Isso ajuda a explicar,de acordo com o neurologista,por que pessoas que saíram de relações tóxicas continuam apresentando reações intensas de ameaça diante de estímulos menores,inclusive anos depois.

— Não é exagero. É uma amígdala recalibrada para a hipervigilância — afirma.

O hipocampo,por outro lado,oferece um cenário mais promissor. Ele é uma das poucas regiões do cérebro adulto com capacidade de gerar novos neurônios. Estudos em seres humanos e em animais indicam que pode haver uma recuperação parcial de seu volume quando o estresse crônico termina,especialmente com a prática de exercícios aeróbicos,sono adequado e convivência em ambientes seguros.

Andersson adverte,quando o estresse foi muito prolongado ou começou em fases críticas do desenvolvimento,parte das alterações pode ser permanente ou muito difícil de reverter completamente.

Por que é tão difícil sair?

Parte da resposta está na própria neurobiologia do apego. Outra parte está no desgaste progressivo dos recursos internos que permitiriam à pessoa reconhecer o dano e se afastar.

Quando a autoestima foi minada durante meses ou anos,a saída raramente ocorre por meio de uma decisão repentina.

— Uma das consequências mais frequentes é a pessoa deixar de confiar na própria percepção — afirma Carolina Ricciuti,psicóloga especializada em abuso emocional narcisista e trauma relacional. — Ela começa a duvidar do que sente,do que lembra e do que percebe. Muitas vezes,isso acontece porque,durante muito tempo,fizeram com que acreditasse que exagerava,confundia as coisas ou era sensível demais.

As relações tóxicas se sustentam,em parte,sobre crenças disfuncionais de que os vínculos são instáveis,inseguros e marcados pelo risco de humilhação e sofrimento. Entre as mulheres,sentimentos de culpa e vergonha também podem contribuir para a permanência em relacionamentos com consequências psicológicas traumáticas.

A boa notícia é que os danos não são necessariamente irreversíveis.

A adoção de estratégias saudáveis para enfrentar a experiência foi relacionada a níveis mais baixos de depressão entre pessoas que haviam vivido relacionamentos com indivíduos com traços psicopáticos. Isso sugere que a maneira como a experiência é processada tem influência real na recuperação.

Embora não exista um prazo universal para se recuperar,compreender que a confusão,a ansiedade e a desconfiança não eram fraquezas,mas respostas a um ambiente verdadeiramente prejudicial,costuma ser um primeiro passo.

Ricciuti indica algumas ferramentas que podem ajudar durante esse processo.

Escrever sobre o que aconteceu e registrar emoções e sensações corporais ajuda a validar a própria experiência. Colocar em palavras o que foi vivido e sentido,sem minimizar ou racionalizar,pode favorecer a recuperação da conexão com uma percepção interna que muitas vezes foi silenciada durante a relação.

A psicoterapia voltada para o trauma também pode ser eficaz. Evidências clínicas apontam que o acompanhamento profissional e a possibilidade de processar a experiência em um ambiente seguro são importantes para a recuperação.

Técnicas de regulação emocional,como a atenção plena,podem ajudar a recuperar o contato com o presente. Aprender a vivenciar a calma sem interpretá-la como uma ameaça é,por si só,um processo que exige prática e tempo.

Contar com uma rede de apoio sólida também é fundamental.

— A presença emocional,a escuta sem julgamentos e o respeito pelo tempo do outro são profundamente reparadores para um sistema nervoso que permaneceu em alerta durante muito tempo — afirma Ricciuti.

A especialista ressalta que acompanhar alguém não significa dizer o que a pessoa deve fazer nem tentar resolver sua vida,mas estar presente,ouvir e oferecer apoio.

Mais do que qualquer técnica,o fundamental é reaprender a escutar a si mesmo.

— É preciso voltar a dar valor ao que o corpo sente e aos sinais emocionais que,durante tanto tempo,foram ignorados ou invalidados.

Sinais de recuperação

Os primeiros sinais de recuperação nem sempre aparecem onde se espera.

— Muitas vezes,eles surgem primeiro no corpo,e não no pensamento racional — afirma Ricciuti.

Depois de um longo período de estresse,tensão e confusão emocional,o sistema nervoso começa lentamente a sair do modo de sobrevivência. Isso pode ser percebido em sinais concretos.

A ansiedade constante diminui. A pessoa passa a conseguir relaxar sem sentir que algo ruim está prestes a acontecer,dorme melhor e recupera pequenos momentos de tranquilidade.

A clareza mental retorna. Torna-se mais fácil manter a concentração,a energia aumenta e desaparece a necessidade de revisar cada palavra dita por medo de provocar um conflito.

A pessoa também começa a se reencontrar. Recupera desejos,interesses,projetos e vínculos que havia deixado de lado,além de aspectos da personalidade que tinham sido apagados durante o relacionamento.

Surge ainda a capacidade de estabelecer limites com menos culpa e,com ela,a disposição para deixar de justificar aquilo que é injustificável.

O que a neurociência e a prática clínica mostram,em resumo,é que o corpo não mente. A confusão,o esgotamento e a dificuldade de sair não são sinais de fragilidade,mas de um sistema nervoso fazendo aquilo que aprendeu a fazer: adaptar-se para sobreviver.

O passo seguinte,mais lento e difícil,é aprender que isso já não é mais necessário.