
Histórias no passado,ruínas no presente: edificações icônicas na paisagem do centro da cidade sofrem com abandono — Foto: Márcia Foletto e Gabriel de Paiva
GERADO EM: 23/07/2026 - 22:58
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A paisagem da região central do Rio vive um dilema. De um lado,prédios são erguidos ou reformados,fruto de investimentos da prefeitura e do setor imobiliário na recuperação da área,por meio de programas como o Reviver Centro e o Reviver Cultural. Transformados em residenciais,o Edifício A Noite,na Praça Mauá,e a antiga sede da Caixa Econômica Federal,na Avenida Rio Branco,são símbolos desse processo. Além dos leilões públicos,complexos históricos têm sido alvo de agentes privados. Em março,um conjunto de sobrados na esquina das ruas Miguel Couto e Teófilo Otoni foi vendido a investidores de São Paulo após passar por reformas.
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De outro,o retrato do abandono patrimonial predomina,com imóveis de grande porte,muitos deles históricos,sem uso,degradados ou à espera de uma solução definitiva. O cenário demonstra o desafio que persiste para a efetiva revitalização da área.
Testemunha de marcos importantes na história da cidade e do país,como a Proclamação da República,em 1889,o Palacete Imperial está interditado pela Defesa Civil há 18 anos por risco de desabamento. Entretanto,há quase dez o prédio está ocupado por pessoas em situação de rua.
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Atualmente,há cerca de 40 pessoas,inclusive mulheres grávidas,morando no casarão,que pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),mas está sob responsabilidade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2012.

Palacete Imperial ou Palácio São Domingos,na esquina da Praça da República com Visconde de Rio Branco,foi invadido — Foto: Gabriel de Paiva/Agência O Globo
Projeto para o futuro
Construído em 1862 na esquina da Praça da República com a Rua Visconde do Rio Branco,no Centro,o palacete é considerado patrimônio histórico e está em uma das regiões mais emblemáticas da cidade. O imóvel,em frente ao Campo de Santana,fez parte do acervo de bens da União até ser transferido para a UFRJ,em 1978.
A fachada,que chamava atenção pela imponência,foi ficando irreconhecível com o tempo. A concertina de proteção pouco esconde o visual de abandono. Parte do telhado já desabou dentro do próprio palacete,que acumula uma grande quantidade de entulho. No segundo andar,as janelas foram fechadas com tijolos; as do terceiro estão sem esquadrias e vidros — segundo moradores e comerciantes da região,material foi furtado ao longo dos anos. Além disso,o mato nasce no concreto.
Por causa da umidade e do desgaste natural,a marquise está se deteriorando e os tapumes que cercam o térreo estão danificados,o que facilita o acesso ao interior do casarão. Mas não é por eles que os invasores acessam o imóvel.
— Agora,tem cerca de 40 pessoas morando aí dentro. Entram e saem normalmente — conta um comerciante. — Eles usam uma porta de madeira ali na frente.
O Iphan é responsável pela guarda,conservação,preservação e utilização do prédio até 2032. O objetivo era instalar ali o Centro Nacional de Arqueologia (CNA),mas o projeto nunca foi executado — o centro funciona na sede do instituto,em Brasília.
Embora queira devolver o imóvel,a autarquia continua responsável pelo prédio,tendo,inclusive,realizado algumas obras emergenciais.
Diante das tentativas fracassadas de restauração e utilização do prédio,que já foi sede da Escola de Comunicação — transferida para a Praia Vermelha,na Urca — e do Instituto de Eletrotécnica,que se fixou na Cidade Universitária na Ilha do Fundão —,a UFRJ pretende agora transformar o imóvel no “Observatório de História,Memória e Arte do Rio de Janeiro”,com recursos da Lei Rouanet.
O projeto prevê um complexo cultural e acadêmico dedicado à pesquisa,ao ensino e à extensão nas áreas de história,patrimônio,arte,cultura e inovação,abrigando laboratórios e núcleos multidisciplinares,tais como o Núcleo de Governança e Cultura em Cidades Inteligentes (NUGEC-CI) e o Núcleo de Arte,Ciência e Cultura,entre outros. O orçamento estimado é de R$ 17 milhões.
Pertencente à Sociedade Espanhola de Beneficência,o Hospital Espanhol — criado ainda no século XIX para prestar assistência aos imigrantes do país — fechou as portas em 2020 e,a partir daí,passou a se deteriorar. As paredes do térreo estão tomadas por pichações,enquanto nos andares acima há pedaços com falta de reboco.

Imóveis abandonados ou à venda no Centro do Rio. Na foto,o antigo Hospital Espanhol,na Rua Riachuelo. O prédio foi arrematado em leilão por R$ 12,8 milhões — Foto: Márcia Foletto/Agência O GLOBO
Uma placa instalada ao lado da entrada do imóvel ainda indica o nome do antigo estabelecimento. Mas o letreiro,com letras em tom prateado,já não tem mais o “l” no fim de “Espanhol”.
— Foi uma coisa que fez uma tradição ali e ficou por muito tempo — lembra Carlos Augusto Loureiro,morador do Centro desde que nasceu.
O abandono,observa Augusto,acaba levando a uma sensação de insegurança no local. A situação é relatada também por outros moradores,que se queixam inclusive da presença de usuários de drogas na Rua Conselheiro Josino,que fica ao lado do hospital,em frente ao terreno em que seria construída uma unidade do Inca.
Mas há esperanças para o prédio,que tem seis andares e três elevadores. Em maio de 2023,o imóvel — avaliado em R$ 32 milhões,com débitos de IPTU em R$ 238,5 mil à época — foi levado a leilão.
Com a beneficência endividada — consulta à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional mostra uma dívida de R$ 105,6 milhões —,os valores seriam destinados a ex-empregados e credores da instituição. Casarões,lojas e apartamentos no entorno,pertencentes à instituição,também fizeram parte de lotes do leilão.
Hotel à vista?
No entanto,de acordo com a Coordenadoria de Apoio à Execução (Caex) do Tribunal Regional do Trabalho do Rio (TRT-RJ),o leilão acabou sem interessados. O imóvel só foi arrematado — por R$ 12,8 milhões — num segundo certame,em maio de 2024.
Ainda segundo o TRT,o valor será destinado a 734 credores inscritos no Regime de Execução Forçada da empresa.
Agora resta a dúvida sobre o que será feito com o imóvel. Uma advogada que representa um dos credores afirma que quem arrematou o Hospital Espanhol foi um grupo de hotelaria que atua no Centro. O GLOBO tentou confirmar com os sócios da rede,mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem. Também não foi possível um contato com representantes da beneficência.
Quando o Hospital Espanhol foi desativado,há seis anos,a gestão do então prefeito Marcelo Crivella decidiu apreender respiradores,camas e outros insumos,que foram usados para o enfrentamento da pandemia de Covid-19 em outras unidades hospitalares da cidade.
Integrante da Associação de Moradores e Amigos da Rua do Riachuelo,Isis Viana diz que a região sofre com outras invasões de prédios abandonados,como o da Academia Brasileira de Filosofia,também na Rua Riachuelo
O prédio em estilo neoclássico no número 64 da Rua Primeiro de Março,no Centro do Rio,foi construído a pedido de Dom Pedro II na segunda metade do século XIX,e abrigou a primeira sede nacional do Correio Geral. O projeto do arquiteto Antonio de Paula Freitas (que também trabalhou nas obras da Igreja da Candelária,próxima do edifício,e desenhou a atual sede do Departamento Nacional de Produção Mineral,na Urca,na Zona Sul) tinha originalmente três pavimentos,um mezanino e grupos escultóricos em cimento que fazem referência ao serviço postal.
O imóvel histórico hoje tem cinco pavimentos e deve ser leiloado na quinta-feira,como uma das medidas tomadas pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos,que teve prejuízo de R$ 8,5 bilhões no ano passado e acumula déficit crescente,diante da concorrência das entregas de encomendas por serviços privados,para tentar sanar suas finanças.

Imóveis abandonados ou à venda no Centro do Rio. Na foto,o prédio da antiga sede dos correios. O imóvel foi construído em 1878 e poderá ser arrematado em leilão por lance mínimo de R$ 47,8 milhões — Foto: Márcia Foletto/Agência O GLOBO
Fundador do SOS Patrimônio,Marconi Andrade lembra que,além de correspondências,documentos como escrituras de imóveis precisavam passar pelos Correios,e não pelos cartórios,como ocorre hoje. Dali,eram enviados itens para todo o Brasil.
— Os Correios se tornaram uma máquina burocrática tão grande que foi preciso transferir a sede para o Paço Imperial — conta Marconi,que lamenta o leilão do prédio. — Só mostra o pouco caso do poder público com a História do país. É uma falta de sensibilidade gigantesca.
No imóvel de portas e janelas fechadas,a lembrança do que funcionou no endereço está nas caixas de correspondência de metal na parede e na identificação “Empresa de Correios e Telegraphos” na fachada. Os Correios não detalham quando o imóvel fechou,mas buscas na ferramenta Street View,do Google,mostram que o último registro de uma agência no endereço é de março de 2023.
Avaliado em R$ 50 milhões
Em uma quina dos fundos,na esquina da Travessa Tocantins com a Rua Visconde de Itaboraí,parte do beiral entre o primeiro e o segundo pavimentos caiu e há um buraco na parede em meio à cor alaranjada que se destaca da pintura branca do imóvel.
Uma faixa anunciando o leilão foi instalada numa das janelas,informando o site e um número de telefone para mais detalhes. O anúncio também foi publicado no Diário Oficial da União no dia 10.
No site de leilões responsável pela venda,o prédio aparece avaliado em R$ 53,5 milhões. Só serão aceitos pagamentos à vista,com um prazo de quitação de até 60 dias corridos,contados a partir do dia da licitação.
Há outros quatro imóveis que os Correios irão leiloar no Rio. Foi marcada para a semana que vem a oferta de um prédio comercial no Estácio,também no Centro,com valor inicial de R$ 1,8 milhão. Estão previstos ainda,mas sem data definida,leilões de duas antigas agências: uma de filatelia na Rua do Ouvidor,20,próximo à antiga sede,e outra na Avenida Nossa Senhora de Copacabana,na Zona Sul. Um galpão em Niterói também deve ser posto à venda.
O número 148 da Rua dos Inválidos,na Lapa,abrigou o Instituto Médico Legal por cerca de 60 anos,até 2009,quando o serviço foi transferido para a Avenida Francisco Bicalho. Nele,ficou um acervo de documentos produzidos a partir da década de 1930. Mas,desde a desativação,o prédio sofre com a falta de manutenção,o acúmulo de sujeira e sucessivas invasões. Expostos a umidade,infiltrações e fezes de pombos,documentos começaram a ser retirados do local no primeiro semestre. No entanto,o imóvel de cinco mil metros quadrados continua em estado precário e sem destino.

Imóveis abandonados ou à venda no Centro do Rio. Na foto,o prédio do antigo IML,na Rua da Relação — Foto: Márcia Foletto/Agência O GLOBO
No lado de fora,na semana passada,as paredes estavam se desfazendo. As janelas estão quebradas,há pichações,mato,entulho,poeira e resíduos como garrafas,ferro retorcido,restos de madeira,plástico e latas. Vizinhos reclamam que o reboco despenca diariamente. Uma placa em uma parede lateral ameaça cair.
— Meu apartamento está com nove telhas quebradas porque alguns fragmentos estão caindo aos poucos. Só que agora tem um bloco de praticamente uma parede inteira descolando e ameaçando vir abaixo a qualquer momento. Somos seis famílias no prédio. Estamos com medo de uma tragédia — alerta o profissional de Tecnologia da Informação Fábio Monteiro,de 47 anos.
Segundo a vizinhança,as invasões cessaram recentemente,após o principal acesso,pela Rua Mem de Sá,ser fechado e guardado por seguranças contratados pela Polícia Civil.
De volta à união
Pertencente à União,o imóvel foi cedido ao Estado do Rio quando passou a sediar o IML,mas,em março,a Justiça determinou que voltasse para o patrimônio federal. De acordo com a Secretaria do Patrimônio da União (SPU),a retomada da posse será efetivada após o recolhimento de toda a documentação histórica.
O acervo começou a ser retirado em maio por uma força-tarefa do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj) em parceria com o Iphan e entidades da sociedade civil. Com pouco espaço,o Aperj negocia para que a UFRJ e a UniRio recebam,provisoriamente,parte das peças.