
Desenrola será prorrogado até 31 de agosto — Foto: Pixabay
GERADO EM: 28/07/2026 - 22:52
O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO
O governo decidiu prorrogar a atual edição do programa Desenrola Brasil,de renegociação de dívidas bancárias,como O GLOBO antecipou. O Desenrola 2.0 foi lançado em maio e tinha previsão original de encerramento na próxima segunda-feira.
O ministro da Fazenda,Dario Durigan,confirmou que a iniciativa será estendida até 31 de agosto. Dessa forma,o programa estará em vigor quando começar a campanha eleitoral,mais próximo da eleição.
Medida não tem efeito prático: EUA vão prorrogar sobretaxa aplicada ao Brasil desde julho de 2025 Petrobras: estatal amplia produção de petróleo em 15% e registra alta nas vendas de derivados no primeiro semestre
A mudança de data ocorre também a pedido dos bancos,que avaliam haver maior demanda. Segundo o ministro,a decisão não exigirá aportes no Fundo de Garantia de Operações (FGO),que cobre eventuais calotes,nem terá novas restrições ou alterações:
— Esse prazo adicional vai ser importante,inclusive,para que as pessoas que hoje estão tendo de acessar os programas de moto,carro,para trocar a sua moto,o seu carro,possam resolver eventuais pendências previamente,que é usar o Desenrola,para depois se enquadrar nas condições para as operações de carro e moto e também poderem fazer jus a essas obrigações — afirmou o ministro.
Continuar Lendo
Pela primeira vez: Brasil torna-se maior importador global de carros chineses com US$ 5,2 bilhões em compras
Durigan fazia referência ao Move Brasil,outra medida no âmbito do pacote de estímulo e crédito do governo em ano eleitoral,que busca reaquecer a demanda e angariar apoio junto a segmentos estratégicos.
O ministro estima que,com a prorrogação,o governo deve alcançar 10 milhões de famílias beneficiadas.

Desenrola números — Foto: Criação O Globo
O autônomo Guilherme Teixeira,de 25 anos,é um dos interessados. Após cinco meses de instabilidade financeira,ele recorreu ao cartão de crédito para pagar despesas do dia a dia. Com os juros,o valor da dívida cresceu e gira em torno de R$ 10 mil. Ele já tentou negociar com o banco,mas as taxas não eram atraentes.
— O endividamento é causado pelo desequilíbrio entre o que se ganha e o que se gasta para viver minimamente bem. Não faz sentido triplicar a dívida de quem não conseguiu honrar nem o valor original — disse Teixeira,que planeja reduzir o uso do cartão depois disso.
Financiamento: Lula reúne ministros para discutir desempenho de programa de crédito para taxistas e motoristas de aplicativos
Até o último dia 23,foram renegociados no novo Desenrola R$ 22 bilhões em dívidas,em um total de 3,6 milhões de operações. Após os descontos,o volume desses débitos caiu para cerca de R$ 4 bilhões.
Os números são da vertente do programa para dívidas de pessoas físicas no cartão de crédito,cheque especial e crédito pessoal (CDC),contratados até 31 de janeiro de 2026 e com atraso entre 91 dias e 2 anos. Participantes podem obter descontos de até 90% e taxa máxima de juros de 1,99% ao mês,com até 48 meses para pagar.
O desenho prevê a possibilidade de utilização de parte do saldo do FGTS para amortização parcial ou quitação das dívidas,mas a opção está sendo pouco usada. Até o momento foram feitas 110 mil operações,com valor de apenas R$ 62,2 milhões.
Conselho do FGTS aprova distribuição de R$ 13 bi entre trabalhadores: Calcule quanto vai para sua conta
O Desenrola foi recriado em um contexto de alta do endividamento e elevado comprometimento de renda das famílias,que,na visão do governo,estava gerando outros riscos para a economia no médio e longo prazos — e vinha impactando negativamente a popularidade presidencial.
A lógica do programa é que os bancos renegociem os débitos e abram uma nova dívida,menor e com garantia do FGO,o que reduz o risco de inadimplência para as instituições,ao mesmo tempo em que,no médio prazo,recupera-se a capacidade de consumo das famílias.
Estatísticas de endividamento do Banco Central mostram que as dívidas correspondem a 30% da renda acumulada em 12 meses pelas famílias. Esse percentual se mantém praticamente no mesmo patamar desde o fim de 2021,na métrica que desconsidera o crédito habitacional. E o juro alto pesa no orçamento.
“O histórico mostra que esse tipo de alívio,isoladamente,não interrompeu o ciclo estrutural de endividamento” - Flávio Ataliba,pesquisador do FGV Ibre
Uma das variáveis desse quadro é a taxa de inadimplência do cartão de crédito entre pessoas físicas,que chegou a 63% em maio.
Para Fábio Bentes,economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens,Serviços e Turismo (CNC),as famílias acumularam muitas dívidas em cinco anos,período que inclui a fase da pandemia. O quadro,pondera,é de renda apertada,com parte do aumento real consumido pelos juros.
Bentes considera a prorrogação bem-vinda,mesmo com a percepção de que não ataca o cerne do problema,o juro alto. A taxa média de juros no crédito livre para as famílias supera 60% ao ano,maior patamar desde 2017.
— A pessoa adere ao programa e limpa a dívida,mas depois acaba pedindo novo cartão e se pendurando em uma nova. O vetor da educação financeira é importante. Se o sujeito tem quatro ou cinco cartões,não tem Desenrola que dê jeito — afirmou.
Flávio Ataliba,pesquisador do FGV Ibre,diz que esta edição trouxe regras mais azeitadas e cita descontos mais agressivos,veto ao uso de bets e possibilidade de uso do saldo do FGTS. Segundo ele,o anúncio da prorrogação antes do fim do prazo do programa mostra que a equipe econômica conta com o Desenrola como parte da estratégia de sustentação do consumo no segundo semestre.
Veja os números da balança comercial: Exportações brasileiras para Argentina caíram 18% nos últimos 12 meses
Mas ressalta que a medida não resolve o problema estrutural. A primeira edição do Desenrola negociou R$ 53 bilhões em dívidas entre junho de 2023 e maio de 2024.
— O histórico mostra que esse tipo de alívio,não interrompeu o ciclo estrutural de endividamento. Sem mudar os fatores que alimentam esse fluxo,como os juros do crédito rotativo,do cheque especial,do crédito pessoal e do crédito não consignado,além da própria Taxa Selic,o endividamento vai continuar elevado — disse.
O governo já criou uma versão do Desenrola para pessoas em dia com dívidas. Rejeitado pelos bancos privados,o programa não decolou. Mesmo os bancos públicos não estariam tão agressivos quanto o governo gostaria,disse um interlocutor ao GLOBO.
Na versão para as empresas,o programa já renegociou R$ 25 bilhões em dívidas,em um total de 200 mil operações. A maioria foi via Pronampe,com R$ 23,4 bilhões.
*Estagiária,sob a supervisão de Danielle Nogueira