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‘Reciprocidade mostra que Lula usa embalagem da soberania e vai levar isso até o fim das eleições’, diz Thiago Aragão

Aug 14, 2026 IDOPRESS

Thiago de Aragão,pesquisador sênior do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais de Washington e CEO da Arko Advice International — Foto: Divulgação

A decisão do governo do Brasil de iniciar o processo de reciprocidade em razão do tarifaço imposto a produtos brasileiros pelo governo de Donald Trump se apoia na “embalagem” de questão da soberania nacional que o presidente Lula deu à extensa disputa travada entre os dois países no campo comercial,avalia Thiago Aragão,pesquisador sênior do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais de Washington e CEO da Arko Advice International.

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O entendimento do cientista político é de que esse posicionamento de Lula é possível porque o Brasil não é um país com forte dependência dos EUA no comércio exterior. Sob efeito do tarifaço de Trump,as exportações brasileiras para o mercado americano recuaram ao menor patamar histórico,segundo a Amcham Brasil,para US$ 17,4 bilhões,queda de 13% ante a igual período de 2025.

A fatia de vendas do comércio internacional do Brasil abocanhada pelos americanos encolheu para 9,4%,o mais baixo índice desde o início da série em 1997.

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Para Aragão,a conduta de Lula é política e a discussão foge do âmbito comercial. Trump mira em conseguir um acordo na área de minerais críticos com o Brasil,além de avançar em vantagens para as gigantes de tecnologia americanas,diz ele. Com isso,Lula poderia brigar agora e,mais adiante,“fazer as pazes” com o presidente americano porque sabe exatamente o que Trump quer.

Em paralelo,os países taxados pelos EUA até aqui não optaram pela reciprocidade,com exceção da China. O movimento deve garantir destaque à Lula na grande imprensa internacional,reforçando o esforço de campanha.

O que motivou o governo brasileiro a acionar a Lei de Reciprocidade?

As tarifas de Trump contra o Brasil têm impacto muito diferente do sentido por outros países porque o nosso comércio exterior depende muito menos dos Estados Unidos do que o de outras nações,por exemplo,como o México. O Brasil é incrivelmente dependente da China. Entre Brasil e EUA,o efeito é mais forte entre empresas privadas,principalmente de serviços,alcançando companhias americanas como Amazon e Meta (dona de Instagram,Facebook e WhatsApp).

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As tarifas americanas são muito ruins para determinadas indústrias no Brasil,mas no âmbito macro não são tão relevantes.

E isso é determinante para a ação do Brasil?

Isso determina o grau de ênfase que o governo brasileiro dá agora. Outra coisa é a questão política,e ela entra dos dois lados. Do lado dos EUA,a forma do Trump negociar é colocar um problema na mesa do outro país,com o custo de fazer com que (esse parceiro) encontre a solução que o governo americano quer.

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É idiotice se ancorar na OMC (Organização Mundial do Comércio) porque não é isso que move a ação dos Estados Unidos. Ela é movida por outras lógicas,sendo uma das principais o antagonismo natural entre governos de esquerda ou de centro-esquerda e os de direita.

Outra é a questão dos minerais críticos. O Brasil é a segunda maior reserva do mundo e pode fazer da China,caso se alie ao país,a grande vencedora.

Se decidir se aliar aos EUA,equilibraria o jogo. Ou pode ainda subir a uma superpotência,se não se alinhar a ninguém. Trump espera que o Brasil feche um acordo em minerais críticos com o governo americano.

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O que move a ação dos EUA são camadas mais profundas,ainda que inclua apoio à família Bolsonaro,mas isso não é o principal. Basta olhar para o que aconteceu na Venezuela. Trump retirou (o ex-presidente Nicolás) Maduro do poder e,depois,não deu a menor pelota para María Corina Machado (líder da oposição no país).

E como o Brasil vê isso?

Do lado do Brasil,Lula pensa que o tarifaço é um problema que não nos afeta tanto. Então pensa: “vou preparar um subsídio para as empresas afetadas e,vejo o que fazer”. Enquanto houver vídeo do (ex-deputado) Eduardo Bolsonaro comemorando tarifaço de Trump em redes sociais,Lula vai usar isso.

A questão da tarifa não é mais uma questão de negociação comercial. Lula fez uma embalagem com a questão da soberania nacional e vai levar isso até o fim das eleições. O uso dessa embalagem requer uma retaliação. Se o tema é soberania,ele é obrigado a rebater a negociação que agride o Brasil.

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Lula sabe que não pode negociar agora. E sabe que Trump vai e volta porque para ele nada é definitivo. É algo como: “brigo com ele agora e posso fazer as pazes depois porque sei o que ele quer”. Outra coisa é que retaliar foi o menos explorado por outros países taxados por Trump. Ao escolher a reciprocidade,Lula vai virar notícia em veículos de destaque em todo mundo.

Além de minerais críticos,Trump busca acordos que beneficiem as big techs americanas.

A Meta tem todas as razões do mundo para não gostar do Pix. O Brasil é o país mais desenvolvido do mundo no WhatsApp e aonde a companhia quer colocar o WhatsApp Pay. Mas há um problema semântico nessa discussão porque o Pix não é um serviço,mas um direito de quem nasce no Brasil.

No fim,tudo isso vai beneficiar a China,a única que pode compensar tudo. Mas ela não faz nada de graça,e já perguntou se o Brasil gostaria que fosse montada uma refinaria chinesa de minerais críticos no país. Isso seria um soco na cara dos EUA,mas amarraria o Brasil com um cabo de aço à China. E Trump está mostrando ao mundo que dependência,seja ela qual for,é um problema.