
Após surfar onda de 24,99 metros,brasileira disputa etapa carioca nesta sexta e aposta na sintonia com Ian Cosenza e na pilotagem para vencer — Foto: Reprodução
Depois de encarar uma das maiores ondas já surfadas por uma mulher,Michelle des Bouillons terá nesta sexta-feira um desafio de características completamente diferentes. Sai a parede monumental de Nazaré,em Portugal,e entra uma onda menor,rápida e irregular no Pontão do Leblon. Ao lado do piloto Ian Cosenza,a brasileira disputa a terceira edição do Gigantes de Nazaré – Etapa Rio,com primeira chamada prevista para as 7h.
A mudança de cenário exige também uma alteração de estratégia. Se em Nazaré tamanho e posicionamento diante de ondas que podem superar 20 metros são determinantes,no Leblon a dupla aponta a pilotagem da moto aquática,a leitura rápida das séries e a sintonia entre piloto e surfista como fatores capazes de decidir uma bateria.
— Obviamente não é Nazaré,mas acho que o maior desafio técnico ali é a pilotagem. É fazer com que as melhores ondas da bateria sejam nossas,tanto da minha parte colocando o Ian nas melhores ondas quanto ele me colocando nas melhores ondas. Não podemos dar margem para as outras duplas pegarem essas ondas — explica Michelle ao GLOBO.
O Gigantes de Nazaré utiliza uma dinâmica diferente das competições convencionais de surfe. Piloto e surfista trabalham juntos e alternam funções na água. A moto aquática é fundamental para colocar o atleta na onda,especialmente quando as condições tornam inviável entrar nela apenas remando.
No Pontão,essa parceria ganha ainda mais importância. Michelle explica que a dupla trabalha com três maneiras diferentes de colocar o surfista na onda. Na primeira,a moto se posiciona por trás da formação,desce parte da parede,libera o atleta e segue por trás. Outra exige uma mudança brusca de direção entre piloto e surfista. A terceira coloca a moto à frente: o piloto desce a onda enquanto o atleta permanece segurando a corda e a solta no instante escolhido para iniciar a linha.
— Tudo depende de uma sintonia entre os dois. Treinamos bastante essas puxadas durante a semana e vamos executar de acordo com a dinâmica da bateria — afirma.
Michelle e Ian chegam ao campeonato com a vantagem de conhecerem bem o mar do Rio. Nos últimos dias,aproveitaram janelas de ondulação e vento para treinar especificamente no Pontão,respeitando também os períodos de maior presença dos surfistas locais.
Para Michelle,o Rio funciona como uma espécie de laboratório permanente para o big surf. Mesmo sem produzir com frequência ondas das dimensões encontradas em Nazaré,praias como Barra da Tijuca e Saquarema oferecem força,ondulação e condições úteis para aprimorar tanto o surfe quanto a condução da moto.
O Pontão acrescenta uma dificuldade própria.
— O Leblon é desafiador porque a onda fecha muito rápido e balança muito. Não dá para pensar muito,tem que agir,manobrar rápido e aproveitar o máximo das ondas — diz Michelle.
A previsão para sexta-feira aponta para um cenário diferente daquele que transformou Nazaré em referência mundial do surfe de ondas gigantes. A expectativa da dupla é de menos tamanho,mas com condições favoráveis de vento e possibilidade de ondas mais organizadas.
— Estou bem esperançosa de que vai ser um dia lindo. A expectativa é que venham ondas um pouco mais perfeitas. Não vai ter tanto tamanho,mas existe uma previsão boa de vento — acrescenta a surfista.
Ian reforça que a estratégia foi construída nos próprios dias anteriores à competição.
— Usamos as brechas do swell e do vento para treinar no Leblon nos dias em que não havia remadores. É um lugar que tradicionalmente tem bastante gente surfando e uma comunidade local muito presente. A estratégia vai sendo definida durante o campeonato,mas o principal é fazer um bom resultado e voltar feliz para casa.
A etapa acontece meses depois de Michelle surfar uma onda estimada em 24,99 metros em Nazaré. Mais do que mudar a projeção internacional da brasileira,o feito alterou a própria percepção da surfista sobre os limites que pode alcançar.

Michelle des Bouillons pegou a parede em dezembro de 2025 durante competição da WSL na Praia do Norte,em Nazaré — Foto: Reprodução/Rennan Chaves
Ela conta que nunca construiu a carreira perseguindo especificamente o recorde de maior onda surfada por uma mulher. A preparação,entretanto,precisava ser suficiente para quando uma oportunidade dessa dimensão aparecesse.
— Meu objetivo nunca foi pegar a maior onda do mundo,mas eu sabia que precisava estar preparada para isso. E a hora veio. Hoje me sinto mais madura,mais confiante,preparada. É como se tivesse trocado de faixa no jiu-jítsu.
Para Michelle,o impacto também foi sentido fora da água. A brasileira acredita que a onda mudou a forma como parte do público enxerga sua presença no ambiente do big surf.
— Por eu ser uma menina vaidosa,delicada fora d'água,algumas pessoas que não são do meio das ondas grandes olham de fora,julgam e criticam. Acho que essa onda não dá margem para ninguém falar nada. É nítido o profissionalismo necessário para estar dropando uma onda dessas. Foi um respeito que conquistei de fora e até comigo mesma.
A onda histórica também consolidou uma parceria. Ian era o responsável pela moto aquática que colocou Michelle na parede em Nazaré. Ele conta que,naquele instante,não sabia exatamente a dimensão do que estava acontecendo.
— A bateria tinha acabado de começar,mas já estávamos havia 30 ou 40 minutos esperando. Dava para ver que era uma das maiores ondas daquele momento. Tudo que eu tinha na cabeça era colocar a Michelle no melhor lugar possível para ela conseguir surfar e pontuar bem. Só depois da bateria tivemos noção do tamanho real daquela onda.
Para Ian,atribuir o feito exclusivamente ao surfista ou ao piloto contraria a própria lógica da modalidade.
— A gente sempre trabalha meio a meio,50% de tudo: responsabilidade,glórias e erros. Sendo uma onda histórica ou uma onda normal de treino,é sempre mérito dos dois. Os dois precisam ser muito corajosos,saber o que estão fazendo e estar preparados para aquele momento.
Essa divisão de responsabilidades será levada ao Leblon. Embora as dimensões sejam incomparáveis às de Nazaré,Ian afirma que os protocolos não mudam.
— A postura tem que ser sempre a mesma em relação à segurança e à escolha das ondas. Tudo que envolve moto aquática e equipamentos náuticos precisa ser tratado com muita seriedade,independentemente do tamanho. O mais importante é voltar para casa inteiro,com os equipamentos inteiros,fazer o churrasco com os amigos e ver todo mundo feliz.