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A música ocidental está perdendo complexidade, mostra estudo matemático

Jun 9, 2026 IDOPRESS

Imagem em negativo da partitura de 'A Sagração da Primavera',uma das peças mais complexas de Igor Stravinski — Foto: Domínio público

É comum ouvir músicos reclamarem que as canções de hoje em dia estão ficando mais simples ao longo das décadas,e que são poucos hoje os compositores dedicados a construir melodias e harmonias mais elaboradas. Essa percepção ganha agora respaldo em um estudo matemático sugerindo que,sim,a complexidade da música parece estar diminuindo.

Se a tendência observada no trabalho se confirmar,o que ele representa ilustra o lamento de um nicho particular de ouvintes. Quem se deleita com gêneros como o rock progressivo,o jazz avant-garde ou as peças orquestrais de Arnold Schoenberg tem mais dificuldade de se surpreender com música de produção mais recente.

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O trabalho que enxergou a assinatura matemática da tendência de simplificação do universo musical,feito por um grupo de cientistas de dados italianos,usou para isso a análise de um corpo de mais de 20 mil peças musicais abarcando peças criadas entre os séculos XVII e XXI.

Os autores da pesquisa,liderados por Niccolò DiMarco,da Universidade da Tuscia,estão ainda tentando entender qual é o significado daquilo que saiu da Caixa de Pandora que abriram. O resultado do estudo eles descreveram em artigo na revista Scientific Reports.

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Para criar uma métrica de complexidade musical,os pesquisadores usaram transcrições digitais de todas as obras para submetê-las a análise. Fossem canções ou peças orquestrais,estavam todas em formato midi,os arquivos digitais que contém informação sobre todas as notas tocadas em uma faixa.

Para criar uma representação matemática de cada música,DiMarco as interpretou como "redes" de notas interconectadas por diferentes intervalos,a diferença de frequência entre cada nota. Os intervalos,mais que as notas em si,são os tijolos básicos sobre os quais se constrói uma melodia e uma harmonia.

A partir daí,o cientista criou métricas de complexidade para atribuir a cada canção.

— Uma dessas medidas é a 'eficiência',que quantifica quanto cada nota está conectada com outra nessa rede — explica DiMarco. — É como se fosse um número que lhe diz o quanto essa canção está explorando o espaço musical possível,além de indicar quanta repetição e quanta previsibilidade existe em sua estrutura.

Todos os arquivos que o pesquisador analisou faziam referência à gravação específica de alguma faixa musical disponível na plataforma de streaming Spotify. Os arquivos que não tinham esses metadados foram descartados da análise,sobrando cerca de 20 mil peças,que DiMarco considerou uma boa representação da música ocidental do período analisado. A presença no mercado fonográfico foi uma maneira de assegurar que nada no conjunto de dados fosse muito obscuro e tivesse pelo menos algum potencial comercial.

Representação gráfica da complexidade de canções; círculos representam notas e hastes as transições entre elas — Foto: Scientific Reports/DiMarco et al.

A conclusão é que o pico de complexidade na música ocidental,como uma média,ocorreu por volta dos anos 1960,e a partir daí seguiu-se um declínio.

"Uma análise temporal revelou mudanças sistemáticas nas medidas baseadas em redes,sugerindo uma tendência ao aumento da similaridade e à redução da complexidade nas estruturas melódicas e harmônicas",escreveu o cientista. "Mesmo gêneros consagrados como estruturalmente complexos,como a música clássica e o jazz,exibem padrões cada vez mais comparáveis ​​aos de gêneros mais recentes."

Essa constatação,de certa forma,invalida o argumento de que o universo musical se tornou mais simples só pelo advento de gêneros como o hip-hop e a música eletrônica. Em outras palavras,se a música está perdendo sofisticação,a culpa não é do pancadão nem do poperô: é um fenômeno generalizado que permeou também culturas musicais que estão perdendo a tradição de sofisticação harmônica.

Neutralidade semântica

Uma característica intrigante do estudo de DiMarco é ele não ter sido feito por músicos nem incluído análises de estrutura harmônica. Ele partiu de uma abordagem matemática algo 'neutra' em termos de semântica musical,mas sua conclusão se encaixou na percepção geral de músicos experientes.

— A música comercial parece mesmo ter simplificado,da mesma forma que o vocabulário coloquial da maioria das linguagens parece também ter encolhido — diz José Fornari,professor da Unicamp especialista em cognição musical.

O trabalho de DiMarco não aborda diretamente as razões pelas quais essa tendência de simplificação estaria ocorrendo,mas Fornari diz crer que a aceleração da indústria cultural tem relação com isso,proporcionando o acesso fácil a áudio para que qualquer um "entre no clima" que quiser,onde e quando desejar.

— Com o excesso de informação em que vivemos imersos,muitos ouvintes tendem a preferir músicas simples,com mensagens diretas,que mediem suas emoções de modo mais assertivo — afirma. — O complexo confunde,exige atenção,e sua maior satisfação está em ser solucionado,como um quebra-cabeças. Como atualmente a maioria das pessoas escuta música realizando outras tarefas (dirigindo,conversando,se exercitando),a música mais simples é mais palatável para a maioria dos ouvintes.

A despeito dos resultados de DiMarco terem visto uma tendência de simplificação na harmonia e na melodia,uma dimensão importante da música ficou de fora de seu estudo: o ritmo. O cientista reconhece também que há outros elementos capazes de conferir sofisticação a uma música,mas que não podem ser capturados em arquivos midi. Cobrir lacunas como essas estão em sua lista de desejos para estudos futuros.

'Macro-gêneros'

Para o coordenador do Grupo de Pesquisa em Música e Matemática da UFRJ (MusMat),Hugo Carvalho,as limitações do trabalho de DiMarco podem,no limite,invalidar a tese de que a música ocidental vem perdendo sofisticação. Seu principal ponto de crítica é a base de dados do estudo tentar classificar toda a música ocidental dentro de poucos "macro-gêneros": rock,pop,jazz,música eletrônica,hip hop e música clássica.

— A produção musical ocidental é muito mais ampla do que isso,incluindo tradições e repertórios inteiros que ficaram de fora,como grande parte da música latino-americana e,no caso brasileiro,estéticas como a MPB — diz Carvalho. — Também é importante destacar que 'complexidade musical' é um conceito difícil de definir matematicamente. No artigo,a medida de complexidade considera apenas a quantidade de transições entre notas distintas na melodia. Avaliar a complexidade de uma obra a partir de um único parâmetro é uma grande simplificação.

DiMarco,de todo modo,faz questão de dizer que a métrica aplicada em seu estudo não é um julgamento de qualidade musical. Para ele,o pano de fundo de sua análise sugere razões mais prosaicas para a tendência observada de simplificação.

— Bach e Mozart criavam música para um conjunto pequeno de pessoas que se interessavam naquilo — diz. — Hoje a paisagem musical é totalmente diferente,e pode motivar um artista tanto a querer criar uma grande obra quanto uma obra que vai ganhar fama por um ano,depois ser esquecida.

Em outras palavras,o espaço para ousadia e sofisticação harmônica sempre existirá na música. A representação desse espaço no rádio e nas plataformas de stremaing,talvez,é que esteja se estreitando.