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É deletéria para o futebol a sujeição da Fifa aos desígnios de Trump

Jul 9, 2026 IDOPRESS

O jogador americano Balogun é expulso pelo árbitro Raphael Klaus — Foto: MICHAEL STEELE / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP

Para quem admitiu nem saber para que serve um cartão vermelho,Donald Trump parece ter aprendido rápido as piores práticas da cartolagem no futebol. Num expediente frequente nos tapetões da Justiça desportiva brasileira,Trump fez pressão sobre o presidente da Fifa,Gianni Infantino,para que fosse suspensa a punição decorrente do cartão vermelho recebido pelo jogador Folarin Balogun,artilheiro da seleção dos Estados Unidos,no jogo de quarta-feira contra a Bósnia e Herzegovina. Assim Balogun poderia entrar em campo na partida seguinte contra a Bélgica. Em gesto de deferência descabida,Infantino cedeu,e Balogun pôde jogar. De nada adiantou a manobra. Os belgas venceram por 4 a 1. O episódio deixou claro,contudo,que nem a entidade máxima do futebol está imune à pressão política.

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Não foi a primeira vez que Infantino e a Fifa se desdobraram em mesuras a Trump. Infantino o agraciou com um insólito Prêmio da Paz da Fifa,simulacro do Nobel da Paz de que Trump se considerava merecedor. Também cedeu à exigência para que a seleção do Irã — cujos jogadores nada têm a ver com os crimes do regime dos aiatolás — tivesse de voltar ao México depois de jogar nos Estados Unidos. E não reclamou quando o governo americano,com base em regras imigratórias abstrusas,negou entrada no país ao somali Omar Abdulkadir Artan,eleito melhor juiz da África em 2025,impedindo-o de atuar na Copa do Mundo.

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Também não foi a primeira vez que houve pressão política pela suspensão de punição numa Copa. Em 1962,para que Garrincha pudesse participar da final entre Brasil e Tchecoslováquia,a Fifa relevou sua expulsão no jogo anterior. O então primeiro-ministro Tancredo Neves,incentivado pelo presidente João Goulart,enviou mensagem para que não fosse punido. A Fifa se rendeu ao argumento de que o lance não constava da súmula. Garrincha jogou,fez dois gols,e o Brasil se sagrou campeão.

O caso de Balogun foi além de uma simples mensagem. Mobilizou a cúpula do governo americano. O secretário de Comércio,Howard Lutnick,e o diretor executivo do grupo da Copa do Mundo na Casa Branca,Andrew Giuliani,convocaram advogados para ajudar a Federação Americana de Futebol a formular o recurso. A Fifa atendeu a Trump com base no artigo 27 do Código Disciplinar,que lhe permite “suspender total ou parcialmente” qualquer medida punitiva. Algo semelhante ao “efeito suspensivo” frequente no Brasil. Balogun voltará a ser punido no período de 12 meses,caso cometa a mesma falta que provocou sua expulsão. Mas isso não redime a Fifa nem atenua os danos à imagem do futebol.

É natural que dirigentes da Fifa tentem cultivar bom relacionamento com políticos. Mas a proximidade não pode interferir no que acontece em campo. O árbitro tem de ser a autoridade máxima dentro das quatro linhas do gramado. Como prega o próprio slogan da Fifa,o futebol deve unir os povos. A sujeição a qualquer demanda política ou ideológica é nociva ao espírito do esporte e deve ser repudiada.