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Canetas emagrecedoras: como o bombardeio de postagens está distorcendo a maneira como os jovens veem o próprio corpo

Aug 12, 2026 IDOPRESS

Jessica Johnson,de 19 anos,que desenvolveu um transtorno alimentar aos 16 anos — Foto: Magnific/Rachek Pick/Bloomberg

Amelia Cate Prosser lembra-se de como,em 2024,os medicamentos da classe GLP-1 pareciam estar em toda parte: guardados nas geladeiras dos pais de suas amigas,exaltados no tapete vermelho e dominando as conversas no refeitório de sua escola particular só para meninas,em Melbourne,na Austrália. Mas foi nas redes sociais que o burburinho era — e continua sendo — mais intenso.

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A adolescente conta que mal conseguia abrir um aplicativo sem ser bombardeada por postagens e anúncios sobre injeções para perda de peso. Modelos de corpos impecavelmente esculpidos,vestindo tops esportivos e alertando que,às vezes,"o esforço sozinho não basta",lotavam seus feeds; o mesmo acontecia com imagens de "antes e depois" que glamorizavam as transformações físicas rápidas de outras jovens. (Seriam imagens geradas por IA? Difícil saber.) Foi nessa época que Prosser,hoje com 17 anos,diz ter desenvolvido anorexia e,mais tarde,bulimia.

— Minhas amigas e as pessoas que conheço,todas nós perdemos a noção de como é um corpo normal,saudável e,principalmente,um corpo feminino — diz Prosser,que usou uma data de nascimento falsa para criar contas em redes sociais voltadas para adultos,em vez daquelas com restrições para adolescentes. — Quer a gente diga isso em voz alta ou não,é um fato amplamente conhecido que todas nós gostaríamos de ter aquela aparência.

Amelia Cate Prosser — Foto: Anu Kumar/Bloomberg

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Nos últimos anos,a popularidade dos medicamentos para perda de peso disparou: atualmente,cerca de um em cada oito americanos com 18 anos ou mais faz uso deles. E,embora os números não sejam tão elevados entre crianças e adolescentes,o uso nessa faixa etária também cresceu vertiginosamente: médicos emitiram cerca de 33 mil prescrições de Wegovy e Mounjaro no ano passado,nos EUA,para pacientes menores de 18 anos,segundo uma análise realizada pela empresa de análise de dados Komodo Health para a Bloomberg Businessweek.

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Originalmente desenvolvida pela Novo Nordisk A/S e pela Eli Lilly & Co. para tratar diabetes,essa classe de medicamentos tem transformado a vida de milhões de pacientes com uma ampla gama de diagnósticos,incluindo obesidade,apneia do sono e doenças cardíacas,muitas vezes com poucos efeitos colaterais.

No entanto,seu uso generalizado e sua onipresença cultural — sem falar nas imitações potencialmente perigosas amplamente disponíveis online — estão causando pelo menos um efeito colateral importante: estão distorcendo a maneira como a geração alfa e os membros mais jovens da geração Z encaram a saúde,o peso e a aceitação em uma fase de formação. As redes sociais e até mesmo a inteligência artificial influenciam cada vez mais essas ideias,e especialistas alertam que os efeitos podem ser prejudiciais e duradouros.

Quase todas as adolescentes entrevistadas para esta matéria disseram conhecer colegas que usam medicamentos da classe GLP-1 sem uma necessidade médica clara; algumas chegam a experimentar sobras obtidas de amigos ou familiares. Algumas veem esses remédios como um "atalho" para evitar exercícios e uma alimentação saudável,ou como um antídoto fácil caso ganhem peso indesejado.

Várias mencionaram os GLP-1s como um possível tratamento para a síndrome metabólica ovariana poliendócrina — um distúrbio hormonal comum —,embora a FDA (agência reguladora dos EUA) não tenha aprovado especificamente esses medicamentos para essa finalidade.

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Pelo menos uma adolescente disse acreditar que começar a usar os medicamentos cedo melhoraria sua fertilidade e suas chances de vir a ser mãe — uma ideia difundida online que ainda não foi comprovada em ensaios clínicos de larga escala. Outras afirmam que emagrecer ajudou garotas que conhecem a impressionar paqueras ou a conquistar a aprovação de pais que desejam que elas sejam mais bonitas.

— Normalizamos isso como uma questão de vaidade — diz Bella Shelton,estudante de 19 anos da Universidade de Utah,que viu os medicamentos começarem a circular em seu grupo social quando ela tinha 16 anos e era líder de torcida no ensino médio.

Ela se lembra de uma colega cuja mãe a obrigou a usar um GLP-1 contra a sua vontade.

— Ao ver todas aquelas garotas ao meu redor,eu pensava: "Será que isso é algo que eu deveria fazer?"

'Será que estão esfregando isso na minha cara por algum motivo?'

Alguns adolescentes dizem ter ficado intrigados com os medicamentos da classe GLP-1 após verem celebridades que admiram (e que nunca consideraram estar acima do peso) promovendo-os,como Serena Williams. Reality shows como "The Kardashians" — cujo império empresarial inclui uma marca de suplementos viral que oferece produtos comestíveis voltados para a "produção de GLP-1 e controle de peso",além de outros que prometem acelerar o metabolismo,reduzir a compulsão alimentar e suavizar a celulite — também alimentaram essa febre.

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Olivia Stepanow,uma jovem de 16 anos de Houston que relata ser alvo de comentários maldosos frequentes sobre seu corpo por garotos da escola,diz que a enxurrada constante de anúncios de GLP-1 exibidos enquanto ela assiste a reality shows nas contas de streaming da mãe a fez questionar se deveria mudar seu corpo.

— Será que estão esfregando isso na minha cara por algum motivo? — diz ela sobre os anúncios,a maioria da plataforma de telessaúde Hims & Hers Inc,que vê constantemente promovendo as injeções e pílulas. — Às vezes,fico remoendo isso e penso: "Devia simplesmente usar e ficar com a aparência que quero ter".

A Hims afirma que não faz publicidade diretamente para menores de idade nem oferece serviços de perda de peso a eles.

— Na minha experiência de mais de 20 anos como médico especialista em obesidade,os medicamentos da classe GLP-1,por si só,não são a origem de padrões de beleza irreais — diz Craig Primack,chefe da área de perda de peso da Hims & Hers. — Há décadas,os adolescentes são submetidos a uma pressão implacável de todos os tipos de mídia para serem perfeitos.

É verdade que adolescentes de quase todas as épocas tiveram de lidar com pressões geracionais para alcançar o "corpo perfeito": os baby boomers idolatravam a modelo britânica Dame Lesley Lawson,mais conhecida como Twiggy; a geração X tinha Kate Moss; e os millennials ansiavam pelos padrões de magreza do início dos anos 2000 (a estética "Y2K"),sendo que o movimento de positividade corporal da década de 2010 teve vida curta.

No entanto,a combinação de medicamentos para perda de peso,inteligência artificial e redes sociais colocou os jovens de hoje em uma situação particularmente perigosa. Adolescentes nem sempre conseguem distinguir o que é real do que não é no ambiente online,e muitos produtos estão acessíveis sem receita médica ou verificação de idade.

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Jovens que começam a usar esses medicamentos agora,mesmo sob supervisão médica,podem acabar dependendo deles pelos próximos 70 anos ou mais — uma opção cara,já que os planos de saúde geralmente não cobrem medicamentos manipulados para perda de peso.

Para alguns,o custo anual,que pode chegar a milhares de dólares do próprio bolso,pode resultar em uma despesa total ao longo da vida na casa das centenas de milhares de dólares. Além disso,há poucas pesquisas sobre os efeitos a longo prazo do uso de agonistas de GLP-1 durante a fase de crescimento do cérebro e do corpo.

Quer admitam ou não,tanto as gigantes da indústria farmacêutica quanto as startups menores de telessaúde podem lucrar ao atrair consumidores cada vez mais jovens para medicamentos destinados ao uso contínuo por toda a vida.

Os adolescentes tornaram-se um mercado particularmente lucrativo para empresas que prescrevem medicamentos via videochamada ou mensagens diretas e realizam a entrega pelo correio. Essas empresas estão posicionando os medicamentos para perda de peso cada vez menos como tratamentos para a obesidade e mais como "elixires estéticos" para qualquer pessoa que queira eliminar alguns quilos.

'Isso me deixa triste,porque passei tantos anos da minha vida odiando a imagem que via no espelho'

Médicos estão especialmente preocupados com o fato de que a triagem para transtornos alimentares não tem acompanhado o ritmo do número de prescrições feitas para adolescentes.

— Estamos celebrando a perda de peso de forma ruidosa e pública novamente,e isso criou um ruído do qual é praticamente impossível para nossos adolescentes escaparem hoje em dia — afirma a psicóloga Jessie Menzel,vice-presidente de programas clínicos da Equip,uma startup de telessaúde que trata pessoas com transtornos alimentares.

A empresa relata que está atendendo pacientes de apenas 11 anos que conseguem acesso a medicamentos para perda de peso sem necessidade clínica. Alguns pacientes chegam à Equip após tomarem medicamentos da classe GLP-1 pertencentes aos pais ou após comprá-los online — usando datas de nascimento falsas ou recorrendo a vendedores no exterior que não exigem receita médica —,conta Jamie Drago,mentora e colega de apoio na empresa.

Os jovens pacientes dizem que conhecem esses medicamentos por meio de influenciadores,à medida que as tendências de "looksmaxxing" (otimização da aparência) ganham força na internet e a enxurrada de conteúdo nas redes sociais faz parecer que "todo mundo está fazendo",diz Drago.

Meninos também são afetados,mas essa pressão está impactando especialmente as meninas.

— Quando você entra nas redes sociais e,ao rolar a tela,tudo o que lhe é recomendado,sendo uma jovem,é "você deveria perder peso,deveria ficar magra e deveria usar Ozempic",certamente isso contribui para uma sobrecarga mental — afirma Jessica Johnson,que desenvolveu um transtorno alimentar aos 16 anos,motivo principal pelo qual abandonou o ensino médio perto de Vancouver. — Isso me deixa triste,porque roubou tantos anos da minha vida,anos em que eu odiava a imagem que via no espelho.

Embora a questão abranja o Instagram e o YouTube,o TikTok se tornou o epicentro nas redes sociais do frenesi em torno de medicamentos para perda de peso. A base de usuários jovem do aplicativo de vídeos,seu algoritmo notoriamente poderoso e sua forte presença no comércio eletrônico por meio do TikTok Shop — um destino importante para suplementos e produtos voltados ao bem-estar — colocaram a plataforma em um patamar à parte,tornando-a um terreno fértil para startups de telessaúde,marcas e influenciadores que promovem seus produtos e serviços.

Um porta-voz do TikTok nos EUA afirmou,por e-mail,que a empresa proíbe postagens — incluindo conteúdo patrocinado — que exibam transtornos alimentares ou comportamentos perigosos de perda de peso para todos os usuários,e que só exibe anúncios com alegações sobre perda de peso ou ganho de massa muscular para usuários com 18 anos ou mais.

O Instagram,da Meta Platforms Inc.,não permite conteúdo que incentive transtornos alimentares ou contenha instruções para comportamentos extremos de perda de peso,disse um porta-voz da Meta por e-mail; regras adicionais se aplicam a adolescentes menores de 18 anos,incluindo a proibição de exibir a eles anúncios de produtos ou serviços de perda de peso

Um porta-voz do YouTube,que pertence à Alphabet Inc.,informou por e-mail que a plataforma bloqueia anúncios de produtos para perda de peso e medicamentos sob prescrição,além de limitar a frequência com que sugere "vídeos que idealizam tipos físicos específicos" quando o usuário é criança ou adolescente. "Desenvolvemos o YouTube para proteger a saúde e o bem-estar dos jovens",disse o porta-voz.

Ainda assim,embora as empresas tenham adotado medidas para proteger os usuários e combater alguns conteúdos problemáticos e marketing enganoso,os criadores de conteúdo encontram facilmente formas de contornar as regras — e os adolescentes sabem como encontrá-las. A hashtag #WIEIAD (abreviação de "what I eat in a day",ou "o que como em um dia") tornou-se uma porta de entrada importante para conteúdos sobre GLP-1 voltados ao público feminino no TikTok; outras postagens celebram a "teen wl" (ou "perda de peso entre adolescentes"). Segundo os jovens,basta interagir uma ou duas vezes com esse tipo de material para que ele se torne onipresente em seus feeds do TikTok.

Eles rapidamente aprendem o que pesquisar para encontrar conteúdos menos acessíveis,utilizando uma linguagem própria do algoritmo — o chamado "algospeak" — que está em constante evolução. Alguns resumos gerados por IA,exibidos na popular ferramenta de busca do TikTok — que os jovens utilizam como se fosse o Google ou o ChatGPT —,oferecem dicas sobre o que dizer ao médico para tentar obter uma receita de GLP-1 e como insistir caso o médico recuse o pedido. Pesquisas sobre transformações físicas com o uso de GLP-1 e injeções de peptídeos figuraram entre os termos mais buscados em julho por todos os usuários do TikTok,de acordo com a central de dados e insights da plataforma voltada para criadores. (Algumas buscas no TikTok também exibem recursos de apoio para pessoas que sofrem de transtornos alimentares,observou o porta-voz do TikTok nos EUA.)

A FDA,agência responsável pela regulamentação do marketing de medicamentos dos Estados Unidos,tem tomado medidas para coibir a publicidade enganosa de fármacos campeões de vendas,incluindo os da classe GLP-1. Isso inclui o envio de "mais de cem cartas de advertência a empresas de telessaúde,expressando preocupações quanto a alegações falsas ou enganosas",bem como o envio de "cartas de notificação de conformidade aos patrocinadores de medicamentos prescritos devido a comunicações promocionais falsas ou enganosas nas redes sociais",afirmou um porta-voz da FDA por e-mail. A agência também tem sinalizado ao TikTok a presença de alegações falsas ou enganosas em sua plataforma,acrescentou o porta-voz. "A agência continuará a tomar medidas para proteger os consumidores contra alegações falsas e enganosas relacionadas aos produtos GLP-1."

No entanto,fazer cumprir as regulamentações nas redes sociais é um desafio árduo. As diretrizes não acompanham o cenário em rápida transformação: novas postagens surgem a todo momento,e as próprias regras podem ser pouco claras. No TikTok,por exemplo,a plataforma proíbe a venda de medicamentos sob prescrição em sua loja,e produtos com "GLP","GLP-1" ou termos semelhantes no título ou na marca são vetados. No entanto,produtos comercializados como auxiliares para pessoas que utilizam medicamentos à base de GLP-1 são permitidos — e estão proliferando.

De volta à Austrália,onde o uso de redes sociais foi recentemente proibido para menores de 16 anos,Prosser superou seu transtorno alimentar. Ainda assim,a enxurrada constante de conteúdo e anúncios nas redes sociais promovendo a perda de peso — somada à infinidade de imagens e vídeos gerados ou alterados por inteligência artificial — tornou sua jornada de recuperação da saúde muito mais difícil e dolorosa.

— Nossos algoritmos jogam contra nós — diz ela. — Não dá para culpá-los diretamente por causar os problemas,mas eles definitivamente os perpetuam.