
Homem com deficiência visual lê jornal com o auxilio de óculos Orcham My Eye — Foto: Divulgação/Orcham My Eye
Tecnologia a favor da inclusão. É com este pensamento que os pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) transformaram as suas teses de doutorado em produtos voltados para proporcionar acessibilidade a pessoas com deficiência. E,para além dos esforços da academia,a Prefeitura de Maricá também está em sinergia com a perspectiva inclusiva. O município comprou 100 óculos acoplados com inteligência artificial capazes de realizar leituras e identificar rostos e cores para pessoas cegas ou com baixa visão. Os aparelhos serão distribuídos gratuitamente para os moradores da cidade que convivem com essa deficiência.
Menina de 12 anos que desapareceu após deixar carta para a família em São Gonçalo é encontradaVinte e dois acampamentos irregulares são desmobilizados no Monte Cardoso Fontes,no Parque Nacional da Tijuca
Produzidos em Israel por uma fabricante local,os dispositivos têm o nome de Orcham My Eye e são vendidos no Brasil pela empresa de tecnologia assistiva Mais Autonomia,por aproximadamente R$ 14,9 mil. Na primeira etapa da política pública,Maricá investiu R$ 1,49 milhão no produto. A prefeitura informou que está sendo feito um edital para que pessoas cegas possam se inscrever para receber os óculos. Os 100 primeiros aparelhos serão distribuídos para os casos mais graves,de perda total de visão,que poderão contar com um treinamento para ensinar como utilizar os dispositivos,oferecido gratuitamente pela gestão municipal. Se a demanda superar o número de itens comprados,a expectativa é de adquirir mais aparelhos no futuro.
Em cada óculos,uma armação abriga em sua lateral um aparelho com um leitor comandado por inteligência artificial que capta imagens e transforma em voz,em tempo real,as informações visuais que observa,narrando-as para o seu usuário. O som pode ser emitido em um alto-falante ou por fones de ouvido conectados via bluetooth. Com o dispositivo,é possível ler textos,reconhecer rostos,cores,cédulas de dinheiro e identificar produtos e embalagens,tudo sem a necessidade de conexão com a internet.
Continuar Lendo
Patrícia Machado,de 48 anos,está entre os moradores de Maricá que terão a vida mudada para melhor com a iniciativa. Há três anos,ela perdeu a visão após ser diagnosticada com glaucoma neovascular,uma forma agressiva da doença que compromete rapidamente o nervo óptico. Desde então,atividades simples,como ler uma bula de remédio,identificar uma nota de dinheiro ou reconhecer alguém à distância,tornaram-se desafios diários,e a leitura de ficção,que era um dos seus passatempos favoritos,não pôde mais ser executada sem o auxílio de outra pessoa. A mulher vê no projeto da Prefeitura uma esperança para voltar a ter autonomia na sua rotina.
— De certa forma,todas as funções são extremamente úteis,mas conseguir ler qualquer texto sozinha seria uma liberdade imensa. Eu me sentiria mais parte do mundo,sem depender de ninguém para me contar o que está escrito. Seria como abrir uma porta que estava trancada. Esses óculos me proporcionariam segurança nas ruas e me permitiriam reviver um hobby que marcou grande parte da minha vida,a leitura — desabafa Patrícia.
Na fase inicial da ação,poderão participar pessoas residentes no município há pelo menos cinco anos,com laudo médico comprobatório e aprovação em análise social. O município informou que divulgará o edital com as regras e o cronograma de inscrições ainda neste mês. Conforme a secretária municipal de Ciência e Tecnologia,Sabrina Alves,a proposta é avaliar o impacto da ferramenta na rotina dos usuários e reunir evidências para futuras ampliações do programa.
— Nosso objetivo com essa fase piloto é gerar evidências sólidas para transformar esse acesso em uma política pública permanente,garantindo que mais pessoas possam viver com segurança funcional no dia a dia — destaca a secretária.
Assim como o investimento da Prefeitura de Maricá,pesquisadores da UFRJ também estão desenvolvendo produtos destinados à promoção de acessibilidade para pessoas com deficiência. Thamyres Abreu,doutoranda do Programa de Pós-Graduação de Engenharia de Produção,desenvolveu um jogo pedagógico que auxilia no aprendizado e na socialização de crianças autistas não-verbais na sala de aula.

Thamyres Abreu apresentou o seu jogo pedagógico na Rio Innovation Week — Foto: Leandro Joras / UFRJ
— O projeto começou no meu interesse em trabalhar com o desenvolvimento de tecnologias para a educação,porque acho realmente importante a gente fazer essa conexão. A gente tem parceria,por exemplo,com o colégio Pedro II,que tem um núcleo para alunos com deficiência. Fizemos jogos para os estudantes montarem palavras e identificarem as imagens dos animais. A iniciativa conta com peças de letras para formar os nomes dos bichos e de figuras das espécies abordadas,que também são descritas em cartas. Os animais têm pequenas linhas em alto relevo para introduzir texturas às crianças autistas com hipersensibilidade. Essas peças devem ser empilhadas e equilibradas. Dessa forma,o jogo trabalha a lógica e o desenvolvimento motor fino das crianças,onde você tira uma letra — explicou Thamyres.
A pesquisadora é uma pessoa autista e pensou no material pedagógico com o intuito de não só auxiliar na socialização de crianças com autismo,mas também evitar que elas passem por dificuldades de aprendizado que ela enfrentou durante a sua infância.
— A ideia inicial veio muito de dificuldades que eu tinha quando eu era criança. Eu não conseguia,escrever a palavra "laranja". A palavra "laranja" não fazia sentido na minha cabeça. Tem várias dificuldades minhas que,se eu tivesse enfrentado na infância,que é quando você aprende e se desenvolve,seriam coisas que seriam mais fáceis para mim hoje. Então,desenvolvi esse jogo para facilitar o aprendizado de montar palavras para essas crianças — disse Abreu.
A versão do jogo citada por Thamyres aborda animais em extinção no Brasil e dinossauros,mas há outras edições que exploram outras áreas do conhecimento para além da biologia. Países do BRICS e sul-americanos são exemplos de outras temáticas exploradas pela iniciativa da pesquisadora. A tecnologia usa uma extrusora capaz de transformar garrafas PET descartadas em filamento para impressoras 3D. A solução permite reaproveitar resíduos plásticos para produzir peças utilizadas em atividades pedagógicas,reduzindo custos e incentivando práticas sustentáveis nas escolas.
A criação dos materiais conta com apoio do Centro Avançado em Sustentabilidade,Ecossistemas Locais e Governança,um laboratório interdisciplinar e hub de inovação de Engenharia da UFRJ. O setor desenvolve atividades em ONGs e escolas das redes municipal,estadual e federal do Rio de Janeiro,como as visitas ao Colégio Pedro II descrita por Thamyres. O jogo está circulando por diversas unidades de educação pública do estado. O desejo da doutoranda é que,em um futuro próximo,os próprios colégios desenvolvam novas peças de seu projeto e disseminem a sua iniciativa.
O projeto está estruturado em três frentes. A primeira capacita professores e estudantes em modelagem e impressão 3D,desde a criação digital até a fabricação dos objetos. A segunda desenvolve jogos educativos e recursos pedagógicos voltados ao desenvolvimento cognitivo,à aprendizagem,à coordenação motora fina e à acessibilidade. Já a terceira integra programação com Arduino,fabricação digital e reaproveitamento de materiais para criar soluções tecnológicas de baixo custo.

Joelmir Ramos ao lado de seu robô humanoide na Rio Innovation Week — Foto: Leandro Joras/UFRJ
Outro doutorando da UFRJ com propósito semelhante ao de Thamyres é Joelmir Ramos,do Programa de Pós-Graduação em Informática,criador de um robô humanoide que,dentre diversas funcionalidades,é capaz de se comunicar em Libras e reconhecer os sinais da linguagem. A invenção do pesquisador também veio de uma frustração pessoal lidando com a falta de acessibilidade. Em 2023,um acidente perfurou seus tímpanos,deixando-o com perda de audição temporária durante dois meses.
— No meu projeto de doutorado,eu fiz o 14-bis,um robô humanoide. Conversei com a minha orientadora,falei que queria desenvolver algo que fosse útil para a inclusão e ela me sugeriu criar nele um mecanismo robótico para interpretar libras — afirmou o pesquisador.
Ramos acatou o conselho de sua orientadora e desenvolveu no seu protótipo uma inteligência computacional capaz de reconhecer e reproduzir a língua brasileira de sinais. A partir do cruzamento de dados matemáticos,o seu projeto consegue identificar os vetores formados pelas mãos humanas quando estão comunicando-se por libras e respondê-los com sinais feitos pela mão do humanoide.
Assim como o projeto de Thamyres,o dispositivo de Joilmar foi apresentado no stand da UFRJ na Rio Innovation Week,feira de inovação que ocorreu no Píer Mauá,no Centro do Rio,na última semana. Mas,diferentemente do jogo criado por Abreu,o robô ainda não foi levado a escolas,o que é um desejo do seu criador,que o fez pensando no seu uso na educação.
Ramos também enxerga potencial de aplicar futuramente o seu robô,que ainda está em desenvolvimento,em locais públicos,como shoppings e aeroportos,para auxiliar na comunicação de pessoas com deficiência auditiva. O doutorando estima que o custo de produção de sua versão final será de R$ 5 mil,um valor baixo para produtos do gênero,o que facilitaria a sua disseminação.