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Agronegócio, logística e império do ensino: de onde vêm as maiores fortunas declaradas nas eleições deste ano

Aug 21, 2026 IDOPRESS

Alguns dos candidatos mais ricos do Brasil — Foto: Reprodução

O patrimônio de 15 candidatos entre os mais ricos concorrendo às eleições soma R$ 4,69 bilhões,segundo as declarações enviadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até a última segunda-feira (17). Na média,é como se cada um desses postulantes tivesse cerca de R$ 312 milhões em bens. A lista inclui empresários,herdeiros de grupos empresariais familiares e até um império da educação.

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Uma análise preliminar dos 40 maiores patrimônios divulgados inicialmente na base de dados apontou que grande parte das declarações no topo do ranking geral apresentava inconsistências ou evidentes erros de digitação (como inclusão acidental de centavos ou casas decimais adicionais,distorcendo os valores para a casa dos bilhões). Por isso,a reportagem filtrou e validou apenas os candidatos cujos bens declarados são compatíveis com a realidade econômica de seus históricos profissionais e empresariais.

O líder deste recorte é Luiz Osvaldo Pastore (PL-TO),candidato a 1º Suplente de Senador,que declarou ao TSE uma fortuna de R$ 677,7 milhões. Empresário com histórico de participação em chapas majoritárias,Pastore já foi suplente no Senado por outros estados,como Espírito Santo e Distrito Federal,e tem sua fortuna concentrada em investimentos e participações societárias. O tamanho do seu patrimônio chama a atenção pela grande evolução ao longo das últimas décadas.

Pastore ganhou as manchetes no passado por ser proprietário do jatinho que levou o ministro do STF Dias Toffoli e o advogado Augusto Arruda Botelho — defensor de Luiz Antônio Bull,um dos alvos da investigação sobre o Banco Master — dias antes do magistrado assumir decisões sensíveis relacionadas ao caso no Supremo.

Pastore é um empresário paulista radicado no Espírito Santo,com atuação em setores como importação,indústria e administração de imóveis. Apesar da baixa exposição pública,acumula influência na política e no meio empresarial.

Na segunda colocação,desponta Antídio Aleixo Lunelli (MDB-SC),candidato ao Senado,com R$ 613,2 milhões. Lunelli é um empresário catarinense de grande porte,conhecido no setor têxtil,e já ocupou o cargo de prefeito de Jaraguá do Sul (SC) duas vezes. Sua declaração de bens é composta majoritariamente por participações em suas empresas.

Lunelli fundou em 1980 a empresa que deu origem ao Grupo Lunelli,hoje um conglomerado têxtil dono de marcas como Lunender,Lez a Lez e Hagar 33,com mais de 5 mil funcionários diretos e negócios também no agronegócio. Publicamente,ele diz que a fortuna é anterior à sua entrada na política,em 2016.

Logo atrás,na terceira posição,está Otaviano Olavo Pivetta (Republicanos-MT),atual candidato ao governo do Mato Grosso,dono de R$ 575,6 milhões — alta de 52% sobre os R$ 378,9 milhões declarados em 2022. Pivetta é um dos maiores empresários do agronegócio brasileiro e figura histórica na política mato-grossense.

Nascido em Caiçara (RS),Pivetta migrou para o Mato Grosso em 1982 e construiu carreira como produtor rural de soja,milho,algodão,suínos e bovinos,antes de ser três vezes prefeito de Lucas do Rio Verde,deputado estadual e,desde 2019,vice na chapa de Mauro Mendes.

Em quarto lugar está Wilson Picler (PL-PR),primeiro suplente de Deltan Dallagnol na disputa pelo Senado no Paraná,com R$ 478,69 milhões. Fundador do grupo educacional Uninter e ex-deputado federal pelo PDT,Picler foi o maior doador individual do então PSL em 2018 — ano em que declarou um patrimônio de R$ 48,3 milhões,dez vezes menor que o atual. Apoiou a campanha de Jair Bolsonaro naquele ano,mas migrou para o campo de Sergio Moro nas eleições seguintes.

Fechando o "Top 5",a região Sudeste volta a aparecer com Vittorio Medioli (PL-MG),empresário italiano naturalizado brasileiro e ex-prefeito de Betim por dois mandatos (2017–2024),com R$ 356,81 milhões. Fundador do Grupo SADA,do setor de logística e transporte de cargas,e dono de veículos de comunicação como o jornal O Tempo,Medioli já foi chamado de prefeito mais rico do Brasil ao se eleger em Betim em 2016,e agora concorre a uma vaga na Assembleia Legislativa mineira.

Clube dos multimilionários

O clube dos multimilionários que vão disputar as eleições 2026 se completa com perfis variados. Misael Artur Ferreira Varella (PSD-MG),primeiro suplente do senador Carlos Viana e filho do ex-parlamentar Lael Varella,aparece com R$ 315,2 milhões — fortuna ligada à rede de hospitais da Fundação Cristiano Varella,referência em tratamento oncológico na Zona da Mata mineira.

Carlos Eduardo Hammerschmidt (Republicanos-PR),suplente de Alexandre Curi no Senado,é vice-presidente comercial do Grupo Potencial,uma das maiores empresas de energia do país,e declarou R$ 281,04 milhões.

Na disputa presidencial aparecem dois nomes da lista: Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo). O primeiro,psiquiatra e autor best-seller de livros como "O vendedor de sonhos" e "A inteligência multifocal",declarou R$ 242,28 milhões. A maior parcela do patrimônio de Cury está concentrada em empréstimos concedidos,que totalizam R$ 128,51 milhões.

O psiquiatra figura entre os três postulantes ao Planalto mais ricos da série histórica do TSE. Cury fica atrás apenas do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles,que concorreu pelo MDB em 2018 e declarou R$ 377,49 milhões,e do empresário e fundador do Novo,João Amoêdo,que informou patrimônio de R$ 425,06 milhões no mesmo ano,o maior valor já registrado.

Já Zema,ex-governador de Minas Gerais,concorre à Presidência com R$ 178,71 milhões,patrimônio construído à frente do grupo varejista que leva seu sobrenome,antes de entrar para a política em 2018. A maior parcela dos bens corresponde à participação de Zema em uma holding familiar,avaliada em R$ 94,5 milhões. O candidato também declarou R$ 56,2 milhões em um fundo de investimento,R$ 16,8 milhões em participação em uma instituição financeira e R$ 3,96 milhões em aplicações de renda fixa.

Ainda aparecem na lista Ivanildo de Almeida Silva (DC-ES),candidato a deputado estadual,com R$ 230,63 milhões; Prisco Rodrigues Bezerra (União-CE),irmão do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio e sócio de empresas dos ramos imobiliário e educacional,primeiro suplente de Capitão Wagner ao Senado,com R$ 201,35 milhões; Carlos Cardoso de Oliveira Filho (PRD-GO),empresário do agronegócio e primeiro suplente de Gustavo Mendanha ao Senado,com R$ 157,75 milhões em fazendas e imóveis.

Ruy Adriano Borges Muniz (PV-MG),médico,professor e dono de uma rede de 16 escolas no Norte de Minas através da Associação Educativa do Brasil (Soebras),é candidato a deputado federal e declarou R$ 154,8 milhões; Maria do Carmo Seffair Lins de Albuquerque (PL-AM),empresária e reitora,é candidata ao governo do Amazonas com declaração de bens na casa dos R$ 118,47 milhões,sendo ela a única mulher entre os 15 mais ricos.

Fecha a lista José Lavelli de Lima,candidato a deputado estadual por São Paulo pelo PSD,com R$ 103,93 milhões. Aos 85 anos,é administrador e sócio de empresas dos ramos imobiliário e industrial em Bragança Paulista,cidade do interior paulista que já governou como prefeito. Também foi candidato a prefeito da cidade em 2024,quando declarou um patrimônio de R$ 71,5 milhões.

Por que 25 das 40 maiores declarações "somem" da lista

A distância entre os 40 maiores valores brutos informados ao TSE e os 15 que resistem à checagem ilustra um problema recorrente nas declarações de bens: erros de preenchimento que multiplicam patrimônios reais por mil,ou que atribuem a itens comuns valores de mercado destoantes.

Entre os casos identificados fora da lista dos 15,um candidato ao Executivo no Centro-Oeste declarou um Volkswagen Polo por R$ 80 milhões e um caminhão de 1987 por R$ 110 milhões; outro,no Norte do país,listou duas chácaras juntas por mais de R$ 1,5 bilhão.

Outro caso que resume bem o fenômeno é o deputado estadual André Silva (MDB-AL),que apareceria entre as maiores fortunas do país com R$ 548,6 milhões declarados originalmente. Procurada pela imprensa,a assessoria do parlamentar confirmou que o valor correto é R$ 548,6 mil.

Os valores citados nesta reportagem são autodeclarados pelos candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e refletem a base de dados aberta do órgão na data de fechamento desta matéria. Os números ainda podem ser retificados até o fim do prazo eleitoral.

Das 40 maiores declarações de patrimônio identificadas nacionalmente,pelo menos 25 apresentam inconsistências que sugerem erro de preenchimento — como a troca de "mil" por "milhão" ou a atribuição de valores de mercado incompatíveis a bens como veículos usados — e por isso não constam neste levantamento.

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