
'A leitura de um romance,em particular de um romance denso e volumoso,requer uma mente treinada para o isolamento' — Foto: Reprodução
Assisti recentemente,nas instalações da Fundação Fernando Leite Couto,em Maputo,a uma conversa entre Mia Couto e Fabio Porchat. A determinada altura,Fabio confessou o receio de que as redes sociais estejam prejudicando a nossa capacidade para enfrentar romances longos.
Ouço cada vez mais pessoas se queixando do mesmo. Nos dias de hoje,também eu experimento certa dificuldade em concentrar-me para ler um romance.
Culpar as redes sociais pelo colapso da literatura me parece um exagero. Primeiro,teríamos de provar que a literatura está em declínio. Contrariando prognósticos insistentes,o mercado livreiro continua vigoroso,e,em muitas partes do mundo,incluindo no Brasil,vem até crescendo.
Além disso,as redes sociais ajudam a vender livros. Os críticos clássicos estão sendo substituídos por influenciadores digitais,muitos dos quais contam com centenas de milhares de seguidores. Os melhores destes novos críticos exercem a sua função com seriedade,indicando títulos,e ajudando o leitor a aceder às obras dos seus escritores favoritos.
Diversos estudos indicam — isso sim — que estamos viciando o cérebro numa perversa coreografia da atenção. A leitura de um romance,requer uma mente treinada para o isolamento. Só conseguimos ler “Ada ou ardor: crônica de uma família”,“Grande sertão: Veredas” ou “Cem anos de solidão”,se formos capazes de criar uma sólida carapaça entre nós e o mundo voraz.
Num qualquer romance é comum personagens surgirem,para logo desaparecerem,retornando tempos depois. Tais ausências e reviravoltas forçam o leitor a recuar,uma e outra vez. O romance exige que nos entreguemos no primeiro parágrafo,em troca de uma recompensa que talvez só surja,numa esquina qualquer,a 200 páginas de distância.
As redes sociais tendem a operar no sentido oposto,oferecendo chocolates a cada esquina.
Dias após a conversa entre Mia e Fabio,tive o prazer de abraçar o ator na Ilha de Moçambique,onde vivo. Fomos passear de dhow. Os dhows são embarcações tradicionais,fabricadas à mão,peça por peça,com recurso a instrumentos tão antigos quanto os próprios barcos. Também as cordas e as velas costumam ser artesanais. Esta sabedoria ancestral vem sendo transmitida de pais para filhos,desde há inúmeras gerações,em alguns pontos da costa de Moçambique,da Tanzânia ou do Quênia. O primeiro dhow terá surgido no Golfo Pérsico,na Índia ou no Mar Vermelho. Ninguém sabe ao certo.
Navegar num dhow é um exercício de lentidão. Quem aceita viajar de dhow renuncia à pressa e à vertigem da modernidade — mas não à modernidade. Não vejo os dhows como uma relíquia de um passado glorioso. Penso neles como um instrumento ajustado ao futuro. São movidos por uma energia limpa e inesgotável,fabricados com materiais locais,e não exigem mais do mar do que aquilo que o mar lhes pode dar.
Os romances funcionam de forma muito semelhante. Embarcar num romance é aceder a uma espécie de eternidade íntima. É viajar à vela,vendo ao longe passarem palmeiras. Como os dhows,romances são máquinas feitas para limpar a alma e devolver-nos a justa posse do tempo.