
Charlotte ao lado dos pais já em São Paulo; ao lado de uma foto em sua infância — Foto: Arquivo pessoal
GERADO EM: 15/04/2026 - 13:56
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"Você tem que ser boazinha e fazer o que te pedem". A frase,repetida pela mãe em meio à guerra,não era um conselho: era uma estratégia de sobrevivência. Décadas depois,ela ainda vibra como síntese de uma infância atravessada pelo medo,pela obediência e por decisões que nenhuma criança deveria precisar tomar.
O lançamento do livro,"La Petite Charlotte: Memórias de Dor. Raízes de Amor",no último domingo,trouxe essa voz à superfície,e ganha um peso ainda maior nesta quinta-feira,Dia Nacional da Lembrança do Holocausto. O que emerge não é apenas mais um relato sobre o Holocausto. É uma história rara,quase improvável: a de uma menina escondida,deslocada entre casas e identidades,que sobreviveu não por heroísmo,mas por disciplina,silêncio,e pelo amor insistente de uma mãe que se recusou a desaparecer.
Charlotte Goldsztajn Wolosker tinha dois anos quando o pai foi levado,em 1940. Aos três,já vivia sob risco constante.
— Eu era muito pequena,não entendia o que estava acontecendo. Hoje dizem que fui corajosa. Eu não fui. Eu sobrevivi — contou ao GLOBO.
A distinção é central. Não há romantização na memória. O que existia era medo e obediência.
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— Eu tinha muito medo. Criança tem medo. Mas eu obedecia à minha mãe. Ela dizia que eu tinha que ser boazinha,que tinha que fazer o que me pediam. E eu fazia.
O pai,Don Goldsztajn,foi enviado primeiro ao Campo de Pithiviers,na França,e depois deportado para Auschwitz. Em Paris,mãe e filha passaram a viver escondidas,confinadas em um quarto improvisado,cedido por uma vizinha.
— Era um espaço mínimo. Uma cama,uma mesa,uma boca de fogão. E uma janela com veneziana. Eu via pessoas com a estrela amarela sendo levadas embora… e nós estávamos ali.


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Desenho enviado por seu pai diretamente do campo de concentração em Pithiviers — Foto: Arquivo pessoal


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Copo enviado por seu pai do campo de concentração em Pithiviers,como forma de "presente" — Foto: Arquivo pessoal
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Passaporte polônes de seu pai,depois de sobreviver no Auschwitz — Foto: Arquivo pessoal

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"Comprovante" de visita de Charlotte e sua mãe,que comprovava a ida delas para visitar o pai,que estava em Pithiviers. — Foto: Arquivo pessoal
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Lançamento do livro "La Petite Charlotte: Memórias de Dor. Raízes de Amor" — Foto: Arquivo Pessoal

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Charlotte Goldsztajn Wolosker e Silvia Wolosker Levi durante o lançamento do livro — Foto: Arquivo pessoal
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Charlotte Goldsztajn Wolosker — Foto: Arquivo pessoal

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Sílvia ao lado dos avós — Foto: Arquivo pessoal
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Charlotte e os pais,em São Paulo — Foto: Arquivo pessoal

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A família — Foto: Arquivo pessoal
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História e fragmentos da francesa teve sua infância roubada e precisou reconstruir tudo no Brasil
A infância foi substituída por um cotidiano de risco. Mudanças constantes,nomes falsos,despedidas sem explicação. Até que veio a separação,organizada pela própria mãe,chamada Czarna,a partir de um pedido enviado pelo pai ainda do campo.
— Ela me levou até uma caminhonete. Eu me lembro de me despedir,entrar e ir embora. Só isso.
A memória da partida é seca,quase sem adjetivos. O trauma aparece justamente na ausência de detalhes.
Charlotte passou por diferentes esconderijos. Em uma escola de freiras,viveu uma das cenas que ficaram gravadas com nitidez:
— Me deram um prato de sopa. Eu passei mal e vomitei. E me fizeram comer a sopa no mesmo prato.
Ali,também perdeu o sobrenome. Tornou-se “Petite”. Um nome falso para uma identidade que precisava ser apagada.
— Eu dizia: “eu não sou Petite”. E minha mãe respondia: “não fala isso”.
Mas o que torna essa história singular não é apenas a travessia,é o que resistiu durante ela. Diferentemente de muitos relatos do período,marcados por rupturas definitivas,aqui há um fio que não se rompe. A mãe de Charlotte seguiu presente.
Costureira,deslocava-se de um esconderijo a outro,trabalhando de forma clandestina. Quando possível,aproximava-se da filha. Em determinado momento,conseguiu emprego como cozinheira em uma escola próxima.
No fim do dia,encontravam-se em uma praça.
Esse gesto,cotidiano,quase invisível,é o que sustenta toda a narrativa. Em um sistema desenhado para separar famílias,aquela mulher insistiu em manter o vínculo.
Não foi sorte. Foi escolha. Foi esforço contínuo.
— Minha mãe era tudo pra mim — lembra.
O reencontro com o pai,após a Segunda Guerra,em 1945,também carrega marcas da ruptura.
— Eu não reconheci. Perguntei: “quem é esse homem?”.
O homem,reduzido a pouco mais de 30 quilos,havia sobrevivido ao sistema que matou milhões. Tentou pegá-la no colo,não conseguiu. Entregou-lhe um patinete. Foi o primeiro presente da vida dela.
A família deixou a Europa pouco depois. O Brasil foi o país que os acolheu. Em 1948,Charlotte chegou ao porto de Santos após um mês de travessia.
— Cheguei aqui com nove anos,para mim,tudo parecia um palácio.
Durante décadas,o passado permaneceu fechado. O pai nunca falou sobre os campos. A própria Charlotte evitava revisitar o que viveu.
— Era um tabu. Não se falava.
O silêncio só começou a ceder quando a filha,Sílvia Wolosker,decidiu escrever. Ao GLOBO,Sílvia relatou todo o processo de produção.
— Minha mãe achava que era um livro para a família. Eu sabia que era para o mundo.
Foram quase dois anos de conversas. Interrupções. Choro. Retomadas.
— Teve dias em que ela dizia que não conseguia continuar.
Ao organizar os fragmentos,Sílvia trouxe à tona uma dimensão frequentemente invisibilizada: a experiência das meninas judias durante a Guerra. Alvos prioritários,muitas não sobreviveram. Outras tiveram suas histórias apagadas.
A de Charlotte chegou até aqui porque alguém insistiu que ela precisava continuar. Uma mãe que costurava,escondia,pagava,fugia,e voltava.
Hoje,cartas,objetos e registros dessa trajetória estão preservados no Museu Judaico. Durante anos,permaneceram guardados,intocados.
— Eu não conseguia abrir. Só abri quando o livro começou.
O impacto ainda não se acomodou completamente.
— Parece que eu ainda vou acordar e perceber que isso não aconteceu.
Mas aconteceu. E agora ganha forma,num momento em que lembrar se torna também um ato político.
A história de Charlotte não se sustenta na ideia de coragem heroica. Ela desmonta esse conceito. O que havia era medo,e a decisão de seguir instruções. O que havia era uma mãe dizendo para a filha ser “boazinha”,porque,naquele contexto,isso significava viver.
E havia amor. Um amor concreto,prático,feito de escolhas difíceis.
— Eles abriram mão de tudo por mim.
Hoje,estima-se que cerca de 210 sobreviventes do Holocausto ainda vivam no Brasil. Cada um carrega uma história única. Nem todas foram contadas. A de Charlotte agora é uma delas.
E,talvez por isso,ela tenha um peso ainda maior: porque mostra que,mesmo no cenário mais extremo,houve quem resistisse não apenas à morte,mas ao apagamento dos vínculos.
Uma mãe que não soltou a filha. Uma filha que aprendeu a obedecer para sobreviver,e que,80 anos depois,finalmente conseguiu lembrar.
— Precisamos aprender a respeitar o ser humano. Nenhum tipo de preconceito é justificável. — encerra Charlotte.