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Companhia Ensaio Aberto reestreia ‘O dragão’ no Rio: 'peça tem lugar especial no teatro político', diz diretor

Apr 29, 2026 IDOPRESS

Os personagens Lancelot (Leonardo Hinckel) e gato Mimi (Tuca Moraes) na peça 'O dragão',encenada pela Companhia Ensaio Aberto — Foto: Divulgação/Thiago Gouveia

RESUMO

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GERADO EM: 28/04/2026 - 19:59

"O Dragão" Reestreia no Rio com Crítica à Extrema-Direita e Fantasia

A peça "O Dragão",da Companhia Ensaio Aberto,reestreia no Rio de Janeiro,no Armazém da Utopia. Dirigida por Luiz Fernando Lobo,a obra do russo Eugene Schwartz é uma crítica à extrema-direita,simbolizando figuras como Jair Bolsonaro,Donald Trump e Benjamin Netanyahu. A encenação mistura política e fantasia,com um dragão de seis metros,efeitos especiais e acrobacias,destacando o papel do fascismo na sociedade contemporânea.

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Na primeira temporada de “O dragão”,em 2021,quando o personagem Lancelot (Leonardo Hinckel) dizia aos moradores da cidade da peça “não tenham medo”,a plateia do espetáculo aplaudia. A frase era claramente interpretada à luz da pandemia e de como o governo de Jair Bolsonaro lidava com ela. Morreram mais de 700 mil pessoas no Brasil de Covid-19 e suas consequências.

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Na reedição de “O dragão”,que estreia na sexta-feira,1º de maio,no Armazém da Utopia (o Armazém 6 do Porto do Rio),o bicho que domina uma cidade anônima há 400 anos pode até fazer alusão à família Bolsonaro,mas não só. Segundo o diretor da Companhia Ensaio Aberto,Luiz Fernando Lobo,ele representa a extrema-direita internacional,a começar pelo presidente dos Estados Unidos,Donald Trump,e pelo primeiro-ministro de Israel,Benjamin Netanyahu,responsáveis por guerras em curso.

— Há dez anos,ninguém se dizia de direita,muito menos de extrema-direita. A extrema-direita saiu do armário. E também saíram os apoios do empresariado e de parte da mídia. Há um crescimento real no mundo. Na Europa,a direita assume bandeiras como “Estrangeiros fora! Voltem para o seu país!” — diz Lobo,para quem é fundamental pensar o papel do fascismo hoje. — É uma ideia do (dramaturgo alemão Bertolt) Brecht: a burguesia e o capital,quando não conseguem o que precisam,põem os fascistas para conseguir.

Hitler e Stálin

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“O dragão” é uma peça que o russo Eugene Schwartz (1896-1958) começou a escrever em 1939,ano em que Hitler e Stálin (duas figuras que o monstro representa) assinaram um pacto de não agressão — que Hitler romperia dois anos depois. O dramaturgo a retomou em 1943 e estreou no ano seguinte. Só houve uma apresentação,pois a peça foi logo proibida. A liberação só veio no final dos anos 1950,e aconteceu um boom de montagens na Europa na década de 1960.

Lobo a conheceu ainda adolescente,numa encenação do Teatro Tablado,no Rio. A tradução era a mesma que ele usa,de Maria Julieta Drummond de Andrade,filha do poeta Carlos Drummond de Andrade.

— Essa peça nunca saiu da minha cabeça,porque ela ocupa um lugar especial dentro da literatura soviética e do teatro político. É completamente antidogmática. Não te oferece nenhum tipo de resposta — afirma ele.

Schwartz classificava a peça como uma “fábula para adultos”. Afina-se com o que o pensador contemporâneo inglês China Miéville vem chamando de “marxismo fantástico”.

— Na visão dele,o fantástico pode rejuvenescer o marxismo — explica Lobo. —Para se chegar à democracia socialista,é preciso inventar novas formas,menos agressivas,menos invasivas,mais ecológicas.

O diretor vê nitidamente Lancelot representando as ideias de Lênin,o principal líder da Revolução Russa de 1917. Atraído pelo gato Mimi (Tuca Moraes),ele chega à cidade,é informado de que Elsa (Luiza Moraes) é mais uma jovem prometida para o dragão (o próprio Lobo na versão humana) e decide desafiá-lo. O confronto acontece no espetáculo,com o dragão de seis metros de comprimento criado pelo artista Eduardo Andrade sobrevoando a plateia.

— No texto,a cidade fica só assistindo e narrando. Que eu tenha conhecimento,sou o único diretor que fiz a batalha — diz o diretor,para quem Lancelot “não quer nada para ele”. — Ele organiza o povo local.

A encenação tem pirotecnia,mágica,acrobacia. Algo bem diferente do que a companhia,voltada para o teatro político,costuma apresentar.

— A esquerda vai ler na peça uma série de coisas que os espectadores comuns não vão ler,mas eles podem se divertir de outra forma. Há tiradas tão boas e cenas tão bonitas que eles acompanham como uma grande montagem de atrações,para usar o conceito do (diretor russo) Meyerhold — ressalta Lobo.

“O dragão” é outra parceria do diretor com o paulista José Carlos Serroni,um dos mais premiados cenógrafos brasileiros. J.C. Serroni,como é conhecido,está com a Ensaio Aberto desde “Sacco e Vanzetti”,espetáculo que estreou em 2014. Para o visual da peça de Schwartz,foi buscar,entre outras referências,a pintura de Marc Chagall (1887-1985),que nasceu no que é hoje a Belarus e se radicou na França.

— Vi que os dois foram contemporâneos. Um falava por metáfora e o outro tinha o lado onírico,meio surreal — aproxima Serroni,que trabalhou com o encenador Antunes Filho por quase 30 anos,com interrupções. — Meus trabalhos com o Antunes sempre foram muito cinzentos. Foi uma beleza trabalhar com cores.

Espírito de guerrilha

O cenógrafo diz se identificar com o espírito “quase de guerrilha” da Ensaio Aberto,que “faz um teatro voltado para a questão social”. É dele o projeto do Armazém da Utopia,reformulação do Armazém 6 que resultou num espaço de 7.417 metros quadrados de área construída. A inauguração foi em 2024,mas a Ensaio Aberto está no local desde 2010 e resistiu a várias tentativas de expulsão.

A companhia tem 16 atores fixos — mas “O dragão” tem 24 — e 60 pessoas contratadas. Promove oficinas com gente de fora,como as pessoas do projeto Crias da Comunidade,de favelas da cidade.

No próximo dia 7,Tuca Moraes reestreia num espaço menor,a Sala Sérgio Britto,o solo “Palavras”,baseado em Clarice Lispector.