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Como Marília Carneiro revolucionou figurino das novelas e criou hits copiados nas ruas: 'Nada era careta'

Jun 8, 2026 IDOPRESS

'Dancin' Days' inspirou moda das meias de lurex e looks para discotecas no fim da década de 1970 — Foto: Alcyr Cavalcanti

RESUMO

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A pioneira figurinista revolucionou a teledramaturgia ao introduzir roupas realistas de lojas em vez de modelos sob medida. Sua abordagem inovadora aproximou os personagens do cotidiano do público brasileiro. Suas criações ditaram tendências nacionais de moda,como as meias de lurex de 'Dancin Days' e os acessórios de 'O Clone'. Muitas ideias surgiram de improvisos brilhantes nos bastidores. Atualmente,Marília revisita sua trajetória de cinco décadas no figurino do musical 'Espelho Mágico'. O espetáculo homenageia os sessenta anos da TV Globo em cartaz no Rio de Janeiro. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.

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A primeira vez que Marília Carneiro percebeu que poderia alcançar status de estrela do seu ofício foi em seu primeiro trabalho na TV Globo. Na novela “Os ossos do barão” (1973),a figurinista,dona de um dos currículos mais contundentes da história da teledramaturgia brasileira,rompeu o padrão ao criar araras com roupas realistas para os personagens da trama de Jorge Andrade,estrelada por Paulo Gracindo,Lima Duarte,Dina Sfat e José Wilker. E foi justamente no GLOBO que ela viu seu nome associado ao trabalho que a colocaria no caminho do estrelato.

O colunista Artur da Távola (pseudônimo de Paulo Alberto Moretzsohn de Barros) informava que os atores estavam “adorando as roupas — caríssimas e de muito bom gosto” usadas no folhetim. Segundo ele,Marília já tinha trabalho garantido em outras produções da casa. Na época,o jornalista destacava ainda que ela desenvolvera cerca de 200 trajes apenas para a fase inicial da novela.

A figurinista Marília Carneiro,que assinou clássicos como 'Dancin' Days' e 'O clone' — Foto: Guito Moreto

Marília queria fazer algo diferente do que já se fazia. Em vez de criar roupas exclusivas para a novela,recorria à experiência como dona de uma butique em Ipanema para montar os figurinos. Ela passou a selecionar peças prontas para vestir,aproximando os personagens da realidade dos telespectadores.

— Eu era chamada de sacoleira. Na cabeça das outras pessoas,uma figurinista tinha que desenhar uma roupa,criar,fazer as provas. Mas eu pensava: “Não é bem assim”. Porque,para uma roupa ficar boa,é preciso experimentar muito,e o ator não vai experimentar. Ele não tem tempo nem paciência para tanto. Comecei pegando coisas na minha loja,nas lojas dos outros,jeans e essas peças que usamos mesmo — lembra ela,que hoje assina o vestuário de Cissa Guimarães no “Sem censura”,na TV Brasil.

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Flashback

Foi assim que nasceram figurinos marcantes da televisão,como os vestidinhos soltos da personagem-título de “Gabriela” (1975),as meias de lurex de “Dancin’ Days” (1978),o lenço no pescoço de Vera Fischer em “Brilhante” (1981) e as joias árabes que marcaram “O clone” (2002). Parte dessa trajetória é revisitada no musical “Espelho mágico”,que homenageia os 60 anos da TV Globo,em cartaz no Teatro Riachuelo,no Centro do Rio,até 26 de julho,trazendo figuras marcantes da telinha.

— Foi um flashback,um passeio pelo meu trabalho. Fiz muitas novelas. A roupa conta muito a história da televisão — afirma Marília,que também assina o figurino do espetáculo,ao lado de Patricia Muniz.

Marília chegou à Globo por meio de Dina Sfat,amiga e cliente da butique em Ipanema (“Eu emprestava roupas para Dina e o pessoal irem a Veneza,porque ainda eram duros”,conta). Escalada para “Os ossos do barão”,a atriz bateu o pé junto a Daniel Filho,então produtor-geral de dramaturgia da emissora,para que a figurinista fosse contratada. O diretor considerou o salário cobrado “uma fortuna” e perguntou: “Você pensa que é Elizabeth Taylor?”. No fim,não teve jeito: contratou.

Cena de 'Dancin' Days' mostra Júlia Matos (Sônia Braga) dançando em festa na discoteca — Foto: Wilson Alves

Foi uma decisão acertada,e Daniel bancava as ideias da figurinista. Durante as gravações de “Dancin’ Days”,ela levou Sônia Braga às 23h à casa do diretor vestindo um look um tanto inusitado — era para a primeira cena da personagem Júlia Matos na festa da discoteca — com a atriz usando calça cintura alta em tom vermelho vibrante,óculos escuros,cabelos volumosos e soltos (que o autor Gilberto Braga não gostava tanto,mas foi voto vencido) e somente com uma bandeau,deixando o dorso quase todo nu. Nos pés,meias de lurex. Marília estava com receio. Daniel olhou de cima a baixo e disse: “Vai fundo”. Estava feito o modelo que seria copiado nos quatro cantos do país.

— Nosso encontro é algo para toda a vida. É difícil falar de Marília,porque ela se tornou uma das minhas melhores amigas. Sua qualidade é indiscutível — elogia Daniel Filho.

Outro momento em que Marília viu uma criação sua tomar conta das ruas foi em “Brilhante”. E tudo porque Tom Jobim não havia gostado do cabelo curto de Vera Fischer,que interpretava a protagonista Luiza Sampaio,para quem o compositor havia criado o tema de abertura da trama. A figurinista teve então a ideia de incluir um laço no pescoço da atriz.

Vera Fischer tinha cabelo curto e usava lenço no pescoço para viver Luíza em 'Brilhante' — Foto: Nelson Di Rago/TV Globo

Também em “Os ossos do barão”,ela precisou driblar os censores da ditadura,que implicaram com o biquíni “curto demais” usado pela personagem de Renata Sorrah. Para resolver a questão,Marília emprestou um maiô de seu próprio guarda-roupa à atriz.

Mesmo com os contratempos,era um trabalho divertido,segundo ela:

— Se eu não me divertisse,não trabalhava. É um trabalho que dá prazer. Nada era careta. Sempre fui meio vanguarda,então isso acaba divertindo — afirma ela.

Repertório próprio

Os primeiros trabalhos da figurinista Karla Monteiro foram logo com Marília Carneiro,na minissérie “Anos rebeldes” (1992). Foi a partir de trabalhos como esse que ela aprendeu a pesquisar para fazer figurinos. Hoje,são amigas,como se fossem uma família,ela diz.

— Marília é uma pessoa com repertório e ela sempre falava para observar as pessoas,acompanhar o que está acontecendo no mundo e ter um olhar pensando sempre no figurino — afirma. — Ela fala muito de viajar. Não só viajar,literalmente. Mas saber sobre exposições,artistas em voga,o mundo da alta-costura,que depois podemos traduzir para o popular. Isto é: deixar entrar as referências que vão criando o nosso próprio repertório.

Aliás,foi com pesquisas assim que Marília construiu o guarda-roupa de “O clone”. Para compor o figurino da novela de Gloria Perez,ambientada em parte no Marrocos,ela mergulhou no universo do estilista Yves Saint Laurent que,antes de sua aposentadoria,em 2002,fazia diversas referências ao país árabe,com o qual tinha relação profunda.

Fazer televisão é a coisa mais fácil do mundo

— Marília Carneiro

Giovanna Antonelli,intérprete da marroquina Jade,usava usava lenços,roupas em musseline de seda,maquiagem de delineado marcado e acessórios que viraram febre entre o público. Ainda assim,a personagem tinha um visual bastante ousado para o contexto,com decotes e peças que ajudaram a reforçar sua personalidade na trama.

— Jade era super-rica,superenfeitada,mas tinha praticamente um único par de sapatos. Ninguém nunca descobriu,porque a câmera quase não mostrava os pés. Era confortável,permitia dançar,correr — conta Marília. — Fazer televisão é a coisa mais fácil do mundo. É mais fácil que cinema,que amplia muito a imagem. Na TV,não se tem toda aquela atenção com a parte de baixo do figurino,a menos que seja preciso.

Em 'O clone',Jade (Giovanna Antonelli) dança para Lucas (Murilo Benício) — Foto: Divulgação

Generosidade

No musical “Espelho mágico”,Marília reuniu parte desse seu repertório na TV e o transformou em peças para o teatro. A produção ao lado de Patrícia Muniz foi uma troca de saberes,na qual a mais experiente também se permitiu a compartilhar o que aprendeu ao longo de suas cinco décadas de carreira.

— Fizemos com que o figurino se comunicasse com a última fileira sem explodir na primeira. O pulo do gato era encontrar o tom para os personagens clássicos. Como uma lente de aumento,com o exagero que o palco pede — afirma Patrícia. — Foram muitos aprendizados. Talvez o maior seja a generosidade dela. Dividir um trabalho tão particular com outra pessoa exige uma generosidade sem tamanho,ou o processo não flui.