Educação física

Alunos aprendem no IMS antiga técnica que usa ovos, ouro e prata para produzir fotos

Jun 14, 2026 IDOPRESS

Processo artesanal. Alunos do projeto revelam suas fotografias no laboratório: vindos de áreas periféricas da Região Metropolitana,eles conheceram uma técnica que passa longe das imagens digitais — Foto: Alexandre Cassiano

RESUMO

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GERADO EM: 13/06/2026 - 19:30

Curso no IMS resgata técnica fotográfica do século XIX para moradores de áreas periféricas

No Instituto Moreira Salles (IMS),no Rio,alunos resgatam uma técnica fotográfica do século XIX,que usa ovos,ouro e prata,em um curso voltado a moradores de áreas periféricas. A iniciativa,parte da Escola Escuta,busca democratizar o acesso ao conhecimento e fomentar a multiplicação dessa prática rara,destacando a importância de preservar tradições artísticas e históricas.

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Cento e oitenta ovos para quatro imagens. A fórmula inusitada resume — de forma bem superficial,é verdade — um antigo e lento processo para a produção de fotografias que remonta a meados do século XIX e foi muito usado em registros históricos de mestres como Marc Ferrez (1843-1923). A técnica centenária inclui a produção de albumina a partir das claras para garantir a fixação de partículas de prata ao papel que,depois,será sensibilizado pela luz que vai atravessar o negativo. No Rio,há um lugar onde isso ainda é possível.

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Artistas visuais oriundos de territórios periféricos do Rio entraram no laboratório do Instituto Moreira Salles (IMS),na Glória,e saíram de lá semanas depois levando junto esse conhecimento raro e cópias de suas fotos impressas com a qualidade e o aspecto que nenhum celular,por mais filtros e outros recursos,consegue igualar. A oportunidade para esse grupo seleto surgiu a partir da Escola Escuta,projeto desenvolvido pela área de Educação do IMS que chega este ano à terceira edição. Surgida de uma provocação durante um debate por ocasião da exposição “Letizia Battaglia: Palermo”,com a obra da fotógrafa italiana,a iniciativa primeiro virou um festival e depois uma escola.

Ailton Silva (em primeiro plano,à esquerda) mostra o antigo processo de produção fotográfica aos seus alunos — Foto: Alexandre Cassiano

— Durante um seminário fomos confrontados com a percepção de que tínhamos muito a dizer,mas pouco a ouvir. Houve um momento em que alguém afirmou: “A gente vem aqui,fala,mas não está aqui”. Aquilo nos fez refletir — diz Jorge Freire,supervisor de Educação e Territórios do instituto.

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Curiosidade analógica

Voltada quase que exclusivamente para um público que abarca moradores de áreas populares da Região Metropolitana do Rio,negros,pessoas LGBTQIA+,integrantes de povos originários e quilombolas,a iniciativa já abriu as portas do instituto para 410 alunos em 13 atividades como cursos,residências e aulas avulsas. As tais 15 dúzias de ovos citadas na abertura deste texto fizeram parte do curso “Laboratório de impressões — Albuminas contemporâneas” conduzido no ano passado por Ailton Alexandre da Silva,supervisor do Laboratório de Processos Fotográficos Históricos do IMS.

“Faca amolada”. A artista Urucuia apresenta sua arte — Foto: Alexandre Cassiano

— As aulas aconteceram uma vez por semana porque o processo exige intervalos. A gente quebrou 180 ovos,né? Mas isso é só o início,depois é preciso preparar a mistura,tratar e deixar o material decantando na geladeira por cerca de duas semanas para retirar impurezas — conta Ailton Silva,que é fotógrafo e impressor especializado em processos analógicos históricos e contemporâneos. — Também precisávamos de tempo para produzir os negativos. Levamos cerca de uma semana trabalhando nos arquivos escolhidos pelos participantes do curso. Além disso,houve todo o preparo do papel antes de chegarmos à impressão das imagens.

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Basta bisbilhotar os perfis da galera mais antenada nas redes sociais para ver que antigas câmeras analógicas (e as primeiras digitais também) viraram objeto de desejo. Nada tão radical quanto as técnicas ensinadas por Ailton,mas a tendência é forte.

— O interesse aumentou e muito,sim. A gente percebe isso com muita clareza,especialmente depois da pandemia. Nossa maior clientela é a garotada jovem,adolescentes,em geral. Acho que é um cansaço de tantas telas e também a curiosidade de conhecer algo novo — explica o fotógrafo e professor de química aposentado Victor Hugo de Oliveira Cabral,86 anos,dono da Centro Foto Copa,loja especializada no ramo desde 1958.

Experimentação. Marcelo Rocha e sua obra conceitual — Foto: Alexandre Cassiano

A curiosidade tem preço. Victor Hugo conta que um filme padrão,com meras 36 poses,custa em média R$ 100. Uma câmera simples,automática,com flash,a partir de R$ 400. A revelação,mais R$ 68. E por aí vai. Pode parecer salgado,mas nada comparado à técnica ensinada por Ailton no IMS. E não é por conta do preço da dúzia de ovos. É que parte do processo que Marc Ferrez usava em seu material inclui elementos como prata e ouro,por exemplo. Por isso,no curso,os alunos são estimulados a se juntar para seguir adiante. Mais gente,menos custo individual. Outra fórmula,essa bem mais simples e conhecida. Além disso,a Escola Escuta incentiva que os alunos passem adiante o conhecimento adquirido.

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— O trabalho com a albumina hoje no Brasil é feito basicamente por duas pessoas. É algo muito raro mesmo. Quando pensamos o curso uma preocupação foi selecionar pessoas que tivessem potencial de multiplicar esse conhecimento — explica Ailton Silva.

A turma do laboratório em 2025 foi formada pelos artistas visuais Urucuia Moura,de 31 anos; Gabe Ferreira,de 29 anos,e Marcelo Rocha,de 56 anos,com reforço de Thamires Brito,27 anos,assistente de Ailton no IMS.

Buracos nas memórias

Feirinha da Pavuna. Memória afetiva na foto de Gabe — Foto: Alexandre Cassiano

Nascido em São João de Meriti,Gabe Ferreira,que hoje vive em Vila Isabel,foi atraído pela fotografia por uma inquietação pessoal. Ao revisitar álbuns de família,percebeu que havia “buracos” nas memórias causados tanto pelo acesso limitado à fotografia em si,quanto por perdas provocadas por recorrentes enchentes no bairro.

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— Quando vi a chamada da Escola Escuta,fiquei interessado justamente em entender aquilo que antecede o negativo fotográfico,que é o suporte com o qual mais trabalho — diz o artista,formado em Letras pela UFRJ,enquanto mostra sua foto impressa à Ferrez,parte de uma série sobre a Feirinha da Pavuna.

Experiência. Thamires Brito é artista e assistente no IMS — Foto: Alexandre Cassiano

Fotografia não é o único foco da Escola Escuta. Este ano,a exemplo dos anteriores,haverá formações variadas até novembro. No cardápio,o curso “Preparação de Obras de Arte”,ministrado por João Gabriel Reis Lemos,e “Impressão Digital”,por Daniel Sias Veloso. A fotografia vai focar em Ampliação Analógica PB. Em outro eixo,formações em “Histórias das Artes”,incluindo a produção de artes visuais e cinema na Baixada Fluminense.

— O desafio é desencastelar as instituições para que seus saberes sejam compartilhados. Queremos que o IMS abra suas portas e divida seus conhecimentos com pessoas que normalmente não têm acesso a eles. Quando alguém participa de uma oficina e entra em contato com técnicas utilizadas por nomes importantes do nosso acervo,como Marc Ferrez,percebemos um encantamento genuíno. E isso tem muito a ver com a democratização do acesso ao conhecimento — reflete Jorge Freire.

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