
Exame para medicina é chance de demonstrar excelência de profissionais e instituições — Foto: Magnific
GERADO EM: 25/06/2026 - 21:10
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A criação do Enamed como exame nacional de avaliação e proficiência médica representa uma mudança importante na educação médica brasileira. Mais do que uma prova,simboliza uma nova etapa de responsabilidade pública: formar médicos não é apenas abrir vagas ou faculdades,mas garantir competência,segurança,ética,capacidade clínica e compromisso com a vida.
A Medida Provisória nº 1.370,de 2026,ao estabelecer o Enamed como requisito para a inscrição no Conselho Regional de Medicina para os novos estudantes que ingressarem no curso,traz uma mensagem clara: o diploma,isoladamente,não pode ser o único passaporte para o exercício profissional. A sociedade precisa ter segurança de que o médico que chega à atenção básica,à emergência,à UTI ou à residência médica possui conhecimentos e habilidades mínimas para cuidar.
O Brasil viveu uma expansão acelerada dos cursos de Medicina. Essa expansão teve méritos,especialmente ao buscar interiorizar a formação e reduzir desigualdades regionais. Mas também trouxe um risco evidente: crescimento quantitativo sem garantia de qualidade. Na medicina,a fragilidade da formação se materializa em diagnósticos tardios,condutas inadequadas,uso ineficiente de recursos e insegurança assistencial.
Por isso,o Enamed deve ser compreendido como instrumento de diagnóstico,regulação e aprimoramento,e não como medida apenas punitiva. A avaliação ao final do quarto ano,com caráter formativo,permite identificar lacunas antes do internato,quando o estudante ainda pode ser apoiado. Já a etapa final,ao término do curso,assume papel de proficiência: afirma que há um patamar mínimo de competência a ser demonstrado antes do exercício pleno da medicina.
A integração com a residência médica também é relevante. Ao permitir que a nota seja usada nos processos seletivos de acesso direto,o país começa a construir uma régua nacional mais homogênea e comparável. Isso pode reduzir assimetrias e valorizar competências essenciais. Ao mesmo tempo,a residência não pode virar mera competição por nota. Deve continuar avaliando trajetória,habilidades práticas,maturidade profissional,vocação e compromisso com o SUS.
O futuro do Enamed dependerá de sua governança. Uma avaliação nacional dessa magnitude precisa ser robusta,transparente,periódica,auditável e construída com participação das escolas médicas,do MEC,do Ministério da Saúde,do CFM,da AMB,das sociedades de especialidade e da sociedade civil. A prova precisa refletir as Diretrizes Curriculares Nacionais,a realidade epidemiológica brasileira,as necessidades do SUS e os avanços da prática médica.
Também será essencial evitar distorções. O Enamed não pode induzir formação estreita,baseada apenas em treinamento para prova. A boa medicina exige raciocínio clínico,comunicação,trabalho em equipe,segurança do paciente,ciência,humanismo e decisão em contextos de incerteza. O exame deve ser uma bússola,não uma prisão.
A medida provisória também abre oportunidade para melhorar a regulação dos cursos. Instituições com desempenho insatisfatório precisarão ser acompanhadas,corrigidas e,se necessário,ter vagas revistas. Cursos sem estrutura adequada,campos de prática suficientes,corpo docente qualificado ou integração real com a rede de saúde não podem formar profissionais sem controle efetivo de qualidade.
O Enamed não deve ser visto como ameaça à autonomia universitária,mas como proteção à sociedade e valorização das boas escolas. Universidades sérias terão no exame uma forma de demonstrar excelência. Estudantes bem formados terão um parâmetro nacional de reconhecimento. Pacientes terão maior segurança. E o Estado terá dados objetivos para planejar políticas públicas de formação médica.