
Embora traga alívio financeiro,novo programa pode gerar mais pressões inflacionários,em cenário já tomado por incertezas externas e internas — Foto: Marcelo Theobald / Agência O Globo
GERADO EM: 05/05/2026 - 19:14
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Para além das incertezas no cenário internacional,diante dos conflitos no Oriente Médio,que pressionam a inflação no Brasil,o Banco Central pode ter mais um fator dificultando cortes na taxa básica de juros,a Selic.
É que o chamado Desenrola 2.0,novo programa de renegociação de dívidas lançado pelo governo federal nesta semana,deve contribuir para liberar uma parcela maior da renda das famílias,aumentando os recursos disponíveis para elas consumirem,o que pode acabar impulsionando a atividade econômica no país e,consequentemente,a inflação.
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Juliana Inhasz,economista do Insper,acredita que,embora o novo Desenrola,por si só,possa não ser suficiente para comprometer as decisões de corte de juros do Comitê de Política Monetária (Copom),ele se soma a outros fatores e contribui para uma pressão maior sobre os juros.
— É um programa que (na prática) injeta recursos na economia,num momento em que a gente já tem uma taxa de juros numa leve queda,mas com inflação persistente. Então,eu não acho que seja isso que vai fazer com que,eventualmente,o Copom pare de reduzir juros,mas num cenário onde já tem pressões inflacionárias,sem dúvida ele pode contribuir para que os cortes deixem de acontecer,se assim o Copom entender que é mais viável para o controle inflacionário.
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Luis Felipe Vital,estrategista-chefe de macro e dívida pública da Warren Investimentos,acrescenta que a política monetária,em sua missão de converter a inflação ao centro da meta anual de 3%,já enfrenta cenário de mercado de trabalho apertado e um setor de serviços ainda aquecido,com preços pressionados,o que,mesmo antes da guerra entre Estados Unidos e Irã,já se mostrava como uma restrição a um ciclo de cortes mais intenso.
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— O Desenrola 2.0 traz alívio financeiro sobre a renda e contribui de forma negativa para esse desafio. No entanto,ainda é cedo para mensurar o seu impacto e como isso afetará a condução da política monetária. Na margem,a contribuição é negativa. Vale lembrar que pesa a favor do programa o fato de não implicar em piora das contas públicas — avaliou.
Já Jorge Ferreira dos Santos Filho,economista e professor da ESPM,acredita que o novo Desenrola pode reduzir o espaço para cortes mais rápidos,caso gere uma recomposição de dívidas relevante,mas que não deve ser suficiente para interromper o ciclo de cortes.
— O Desenrola é mais uma política de reorganização de balanço de família do que um estímulo fiscal no sentido clássico. Então,por isso,ele pode ter um efeito sobre a Selic que é indireto e marginal,não determinante.
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Embora ainda não haja estimativas oficiais,o economista se baseia em dados do programa anterior,que teve impacto de cerca de 0,5% do Produto Interno Bruto,para projetar um consumo adicional que traria para o PIB um acréscimo de 0,3 a 0,5 pontos percentuais.
— A família renegociou a dívida e passa a ter uma prestação menor,aí consegue limpar o nome. Isso libera parte do orçamento mensal e a pessoa pode ter crédito novamente. Como o público tem alta propensão para consumir,parte desse alívio pode gerar um gasto em supermercado,farmácia,transporte,serviços pessoais,varejo,pequenas compras parceladas. Isso tem impacto inflacionário e depende da escala. Se for uma recomposição moderada,ajuda a normalizar a economia. Se vier junto com outras medidas expansionistas,pode dificultar o cenário de desinflação — ponderou Santos Filho.