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Entenda a relação entre produtora de 'Dark horse' e contrato para programa de wi-fi suspeito de irregularidades em SP

Jun 2, 2026 IDOPRESS

Karina Gama e o deputado Mario Frias,durante diplomação no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP),em dezembro de 2022 — Foto: Reprodução/Instagram

RESUMO

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GERADO EM: 01/06/2026 - 22:03

Investigação Apura Desvio de Verbas de Wi-Fi para Filme sobre Bolsonaro em SP

A Polícia Civil investiga se verbas públicas da Prefeitura de SP destinadas a implantar wi-fi gratuito foram desviadas para financiar o filme "Dark Horse" sobre Jair Bolsonaro. A operação apura o possível envolvimento da produtora Go Up Entertainment,de Karina Ferreira da Gama,também responsável pelo instituto contratado para o programa de internet. Foram cumpridos mandados e destacadas suspeitas de superfaturamento e confusão patrimonial.

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A Polícia Civil deflagrou na segunda-feira uma operação para apurar se os recursos públicos repassados pela Prefeitura de São Paulo à ONG Instituto Conhecer Brasil,contratada para instalar 5 mil pontos de wi-fi em vias públicas,foram desviados para custear a produção do filme “Dark horse”,sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O longa é produzido pela Go Up Entertainment,que também é dona do instituto contratado para implementar o programa de internet gratuita.

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A Operação Wi-Fi cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços residenciais de Karina,nas sedes do instituto e da produtora,e também na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. A dona do instituto é aliada do deputado federal Mário Frias (PL-SP),roteirista do filme sobre o ex-presidente,que chamou a atenção pelas cifras vultuosas reveladas nas conversas em que o senador Flávio Bolsonaro (PL) cobrava patrocínio de Daniel Vorcaro,do Master.

Subcontratações

No documento em que pede a quebra de sigilo bancário da empresária,ao qual o GLOBO teve acesso,o delegado Antonio Carlos Munuera Silveira,titular da 2ª Delegacia da Divisão de Crimes contra a Administração,afirma que há “suspeitas de confusão patrimonial” e de que recursos públicos do programa “WiFi Live SP” tenham sido desviados para a produção do filme por meio da utilização “das contas das empresas subcontratadas e das demais organizações sociais geridas pela investigada para a lavagem dos valores desviados do erário de São Paulo”.

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Isso porque o ICB foi contratado para instalar os pontos de internet gratuita nas ruas,mas como não é uma empresa de tecnologia,subcontratou serviços de diversas empresas. Ao todo,as subcontratações somam R$ 98 milhões. Neste valor está incluído um pagamento de R$ 36 milhões à empresa Make One,R$ 30 milhões à UltraIP e cerca de R$ 12 milhões às empresas Complexys e Fast Future,que pertenceriam a um mesmo casal “associado à investigada Karina Ferreira da Gama”.

Outro problema,aponta o delegado no documento,é que a entidade cobrou pelo serviço um valor muito superior ao praticado pela própria empresa pública municipal de tecnologia,a Prodam — que pede R$ 230 por implantação por ponto e R$ 306 para manutenção mensal,enquanto o ICB cobrou R$ 1.800 por ponto.

A Civil ainda destacou como suspeito o repasse antecipado da prefeitura de R$ 26 milhões por serviços que não teriam sido prestados,“o que pode evidenciar o desvio de finalidade na aplicação do dinheiro público municipal”.

Segundo processo judicial,a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia foi notificada em 31 de março para apresentar documentos referentes ao contrato. O prazo dado foi de 30 dias,mas a gestão municipal nunca respondeu.

Em nota,a prefeitura afirmou que “todo o material requisitado” na segunda-feira já havia sido disponibilizado às autoridades e são de acesso público,por meio da prestação de contas do município.

O prefeito Ricardo Nunes (MDB) negou irregularidades no contrato com o ICB:

— Toda investigação vai ter todo apoio da prefeitura de São Paulo. E,até o momento,nós não identificamos nada de irregularidade.

Nunes afirmou ainda que a prefeitura não pagou por 5 mil pontos,mas por 3.200,diferentemente do que apontou a Polícia Civil. Outra questão refutada por Nunes refere-se às suspeitas de superfaturamento. Segundo o prefeito,a Prodam cobraria mais do que os R$ 230 por ponto apontado na investigação,e não teria como fazer a implementação em zonas mais afastadas.

— Foi feita toda uma pesquisa de preço e ficava muito mais alto,ficava R$ 2 mil e pouco por ponto. Hoje,estamos pagando R$ 1.280.

Nunes ressaltou que o ICB foi contratado em junho de 2024,enquanto a Go Up só comunicou à SPCine que faria a gravação do filme na cidade em outubro de 2025. E apontou conotação política na investigação:

—Eu acho que isso está mais por conta de que a pessoa que é dessa entidade,ela participa do filme do Bolsonaro. Por que é que só agora veio essa questão?

Relação com Frias

A operação causou bastante incômodo nos aliados do prefeito,que citam “fogo amigo” da Polícia Civil do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). O GLOBO apurou que a operação não passou pela cúpula da Secretaria da Segurança Pública.

Procurada,Karina não se manifestou. Ela nunca havia produzido um filme antes de “Dark horse” e sua experiência principal era no terceiro setor. Nos últimos anos passou a firmar contratos de cifras altas com a prefeitura de São Paulo,diversificou os negócios e abriu uma holding em Aracaju. Tudo isso coincide com uma aproximação com o deputado Mario Frias.

Foi o parlamentar quem emplacou a Go Up como a produtora do filme sobre Bolsonaro. Em 2022,Karina prestou serviços de assessoria de imprensa para a campanha de Frias. Na diplomação do deputado,esteve a seu lado e de sua família.

A parceria dos dois,que se conheceram em 2020,quando ele era secretário de Cultura do governo Bolsonaro,se refletiu nas emendas do parlamentar,que enviou R$ 2 milhões para o ICB.

Na segunda-feira,Frias disse que Karina “não ficará sozinha” e saiu em sua defesa,afirmando que a produtora é “humilde,honesta e trabalhadora”. “Confiamos irrestritamente nela. Karina está sendo usada politicamente. Tudo será amplamente explicado”,disse ele,de acordo com a colunista Bela Megale,do GLOBO.

A Polícia Civil apreendeu o celular pessoal e documentos na residência de Karina. Segundo policiais,ela foi questionada pela demora para abrir a porta,já que a ação ocorreu por volta das 5h. Karina respondeu que estava no banho e que acorda diariamente neste horário para sair para o trabalho,conforme o blog de Bela Megale.

A prefeitura ampliou em dezembro de 2025,para R$ 143 milhões,o valor do contrato com a ONG de Karina,conforme documentos consultados pela reportagem em processos administrativos. Os pagamentos seguem neste ano mesmo após a área técnica da prefeitura ter apontado uma “irregularidade grave” na prestação de contas de 2024,que a gestão diz ter corrigido. O contrato é válido até o fim deste ano.

Antes do aditivo,a prefeitura havia pago R$ 93,5 milhões ao ICB. Em dezembro,a gestão Nunes se comprometeu a destinar mais R$ 49,2 milhões ao longo de 2026 —um acréscimo,portanto,de 50% em relação ao valor pago até então. Neste ano,a prefeitura vem pagando R$ 4,1 milhões por mês à ONG.

A área técnica da Secretaria de Inovação cobrou a devolução de R$ 925 mil destinados de forma incorreta. A maior parte deste valor correspondia a um pagamento duplicado feito pela ONG a um fornecedor,que foi “glosado” pela prefeitura — isto é,não teve sua execução autorizada.

Em nota,a prefeitura disse que esses valores foram integralmente devolvidos pela ONG em 2025,e negou que o município tenha direcionado recursos para o filme em homenagem a Bolsonaro.

‘Fins eleitoreiros’

O valor gasto com “Dark horse” chamou a atenção pelas cifras,já que custou mais do que produções nacionais recentes indicadas ao Oscar,como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”. Vorcaro teria repassado R$ 61 milhões.

Na segunda-feira,Flávio disse esperar que “parte” da Polícia Civil de São Paulo não esteja “sendo usada para fins eleitoreiros”. A declaração sobre a corporação do governo Tarcísio de Freitas ocorreu durante compromisso em Minas Gerais.

— Eu só não quero crer que a gente está sendo vítima,mais uma vez,de uma pescaria probatória,de uma perseguição,porque,se vão fazer uma operação para investigar irregularidades em um determinado contrato,que é de um ano e meio,dois anos para trás,tudo bem,as pessoas vão ter que explicar,o que não tem absolutamente nada a ver com o filme — afirmou Flávio.

(Colaborou Luis Felipe Azevedo)