
Mineira sofreu retaliações ao tornar público o relacionamento com Lanna Holder,sua companheira — Foto: Vinicius Cavalcante
GERADO EM: 01/07/2026 - 19:27
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Desde pequena,Rosania Rocha sabia que era uma criança diferente das demais. Ela tinha 8 anos quando estava no pomar da casa onde foi criada,no interior de Minas Gerais,e ouviu um chamado. “Uma voz disse: ‘Cante para mim! Quero ouvir você’”,narra,sobre o pedido que afirma ter escutado diretamente de Deus. “Fiquei um tempão cantando,chorei e senti algo muito forte. Aquilo determinou quem sou hoje.” Aos 53 anos,a pastora e cantora é um dos maiores nomes do gospel inclusivo,segmento musical cristão que abrange pautas LGBTQIAPN+ e raciais,e lotou,no mês passado,o Theatro Municipal de São Paulo para a gravação de um show. Ela e a mulher,a também pastora Lanna Holder,de 50,são fundadoras da igreja Cidade de Refúgio,inaugurada há 15 anos na capital paulista. Atualmente,são 20 endereços entre Brasil e Portugal,onde há uma unidade em Lisboa,além do projeto de abertura nos Estados Unidos.
A congregação foi fundada a partir de uma história de amor reprimido. Ambas tiveram casamentos heterossexuais antes de se conhecerem,e Lanna chegou a correr diferentes púlpitos pelo Brasil,de onde proferiu,por sete anos,testemunhos sobre ser “ex-lésbica” e ter passado pela “cura gay”. Um discurso que não resistiu ao encontro com Rosania,durante uma passagem pelos Estados Unidos,onde a cantora morava com o marido e o filho. “Fui pregar na igreja onde ela congregava,e ficamos muito amigas”,conta Lanna,também casada com o pai de seu filho àquela altura. “Mas,quando notamos o interesse mútuo,não nos entregamos de imediato. Sofremos muito.”
Ao confessar o que estava sentindo a um pastor em busca de ajuda,Rosania viu seu nome virar fuxico gospel. “No dia seguinte,a notícia já estava na rádio,e minha família desesperada,sem entender nada”,recorda-se a cantora,que se separou do marido,deixou a igreja que ficava em Connecticut e se mudou para Massachusetts. “Ninguém me convidava mais para cantar. Recebi propostas para me apresentar em bares e até gravar músicas seculares,mas recusei todas. Comecei a limpar casas,o que tinha para fazer.”
Diante da rejeição,elas se viram cada vez mais conectadas a pessoas com histórias semelhantes. “Eram LGBTs ‘desigrejados’”,resume Lanna,sobre os amigos que sentiam falta de suas comunidades religiosas,mas haviam aberto mão das mesmas por não serem aceitos. “Existia uma lacuna a ser preenchida.” E a fundação da Cidade de Refúgio mostrou,de uma vez por todas,o tamanho desse espaço. Os primeiros encontros na sede paulistana,hoje com capacidade para mil fiéis,já reuniram centenas de interessados. Mais recentemente,com a criação da CR Online,a congregação chega a países como Japão,França e Israel. “Temos cultos toda semana nas plataformas e começamos a oferecer batizados remotos”,comemora Rosania,que se apresenta,no próximo dia 31,no Teatro Itália,em São Paulo.
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Cantora fez show para divulgar seu álbum mais recente,“Ani-Hu” — Foto: Vinicius Cavalcante
O show no Theatro Municipal,portanto,teve clima de celebração,com direito a trocas de figurino,orquestra,coral e elementos cenográficos,como um balanço que descia sobre o palco. Dirigido por Lanna,o espetáculo envolveu cerca de 200 pessoas e enfileirou 12 músicas divididas em três atos. Entre as canções do repertório,estavam as faixas do mais recente álbum de Rosania,lançado em maio,cujo nome “Ani-Hu” é uma expressão em hebraico que significa “eu e ele em um só”.
O pesquisador Alan Soares Bezerra,do grupo de pesquisa em Comunicação,Música e Cultura Pop da UFPE,acompanhou a atuação de nomes como Rosania para escrever a tese de doutorado “Dinâmicas comunicacionais da música gospel inclusiva”. Ele frequentou cultos da congregação da pastora,onde observou como as estratégias de divulgação seguem,de algum modo,a cartilha do pop internacional. Isso inclui desde a execução das canções nos encontros religiosos ao lançamento de videoclipes nesses ambientes,onde pastoras convocam “suas ovelhas” a divulgá-los pelas redes,com o uso de hashtags e menções à artista. “Mas você não precisa ir à igreja para ouvi-la. Se entrar nos perfis de Rosania nas plataformas ou for alcançado pelo algoritmo de algum fiel,vai chegar até você”,diz. “Quando comecei a pesquisa,em março do ano passado,ela tinha cerca de 40 mil seguidores no Instagram. Hoje já são mais de 75 mil.”
Nada disso,porém,blinda a cantora e sua companheira dos ataques. Se posta um cover de uma canção gospel em suas redes,por exemplo,alguns haters logo aparecem para dizer: “Pare de cantar as nossas músicas”. Um comportamento que ecoa o ódio destilado desde que o casal fundou a Cidade de Refúgio e passou a lidar com ataques e ameaças proferidos por membros de outras congregações. “As pessoas dizem: ‘Deus vai tocar na sua casa,nos seus filhos e nos seus animais’. Também nos praguejam com doenças”,relata Rosania. “Enquanto isso,louvo a Deus por não estar no meio deles.”