
O escritor italiano Sandro Veronesi na Flip,em 2025 — Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo
O escritor italiano Sandro Veronesi,autor do best-seller “O colibri”,lança o romance “Caos calmo” na Livraria Circulares,em Brasília,na quinta,às 18h30. No sábado,às 16h15,participa da Feira do Livro,em São Paulo. No dia seguinte,a partir das 15h,dá autógrafos na Livraria da Vila da Avenida Paulista. “Caos calmo” saiu na Itália em 2005 e dois anos depois no Brasil,publicado pela Rocco. Agora,o livro volta às livrarias em edição da Autêntica. O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.
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A conversa ainda não tinha enveredado por temas esportivos,mas o escritor Sandro Veronesi (cujos narradores são craques na arte de mudar de assunto para manter a atenção do leitor) preferiu se adiantar:
— Vou torcer para vocês na Copa do Mundo,já que a Itália está fora e o técnico do Brasil é italiano (Carlo Ancelotii) — diz o autor do best-seller “O colibri” (mais de 53 mil exemplares vendidos no país,entre livros físicos e e-books),que joga tênis nas horas vagas e conversou com O GLOBO por vídeo,direto de Roma. — Também torço para o Cruzeiro,mas não me lembro mais por quê. (Talvez seja porque o clube mineiro foi criado pela colônia de imigrantes italianos de Belo Horizonte como Società Sportiva Palestra Italia,assim como o Palmeiras,e mudou de nome apenas na Segunda Guerra Mundial,para evitar represálias).
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O escritor de 67 anos e cabeleira grisalha esvoaçante afirma que o Brasil é um dos seus lugares preferidos no mundo. Em julho do ano passado,ele veio pela primeira vez no país e foi recebido por um público caloroso na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
— Aconteceu algo muito raro. Parecia que eu havia escrito meus livros especialmente para aqueles leitores — lembra Veronesi. — Meu filho de 12 anos que estava comigo também ficou impressionado,porque nem na Itália eu sou reconhecido na rua.
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O colibri vai pousar novamente entre nós. Na quinta,às 18h30,Veronesi lança o romance “Caos calmo” na Livraria Circulares,em Brasília. No sábado,dá autógrafos na Livraria da Vila da Avenida Paulista.
“Caos calmo” saiu na Itália em 2005 e dois anos depois no Brasil,o livro volta às livrarias em edição da Autêntica,que além do arrasa-quarteirão “O colibri” também já lançou “Setembro negro”,que narra como o conturbado verão de 1972 virou de ponta-cabeça a vida de Gigio Bellandi,um menino de 12 anos.
Veronesi conta que “Caos calmo” nasceu do cruzamento de uma imagem e de uma experiência pessoal. A imagem: um amigo que havia acabado de perder a mulher lhe disse que se sentia como se estivesse o dia plantado em frente à escola do filho (“era uma metáfora para dizer que estava totalmente focado no menino”,diz o italiano). A experiência: certo verão na praia,Veronesi (que era surfista) e o irmão salvaram duas mulheres de se afogar — e não receberam sequer um “grazie” de volta.
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— Eu estava em choque e,do nada,comecei e pensar: imagine se,depois de ter salvo essas mulheres e ninguém me agradecer,eu chegar em casa e encontrar minha esposa morta — recorda o escritor. — Cheguei em casa e vi que minha mulher estava bem,mas aqueles pensamentos e a imagem do homem parado o dia todo em frente à escola do filho começaram a se misturar. Foi assim que eu encontrei a energia necessária para começar o romance.
O primeiro capítulo de “Caos calmo” repete,até certo ponto,a experiência de Veronesi na praia: o narrador Pietro Paladini e seu irmão,Carlo,salvam duas mulheres no mar e ninguém os agradece. A partir daí,a ficção toma conta: os dois voltam para a casa e encontram Lara,a companheira de Pietro,morta,vítima de um aneurisma da aorta. Lara estava com a filha,Claudia,de 10 anos,e a babá. Dias após o enterro,recomeçam as aulas e Pietro promete à filha que passará o dia todo do lado de fora da escola,à espera dela. “A razão é simples: separar-se hoje é arriscado demais; para ela,e talvez também para mim”,justifica-se.
Os dias se sucedem e Pietro,executivo de uma emissora de TV,consolida uma nova rotina: das oito às quatro e meia permanece em frente à escola. Espantados,parentes,amigos e colegas de trabalho passam a visitá-lo lá para se certificar de suas condições mentais. Curiosamente,são as visitas que acabam desabafando com o enlutado. “Vieram sofrer”,conclui ele.

Quando era surfista,o escritor Sandro Veronesi e o irmão salvaram do afogamento duas mulheres que não deram nem um "grazie": experiência inspirou romance premiado — Foto: Marco Delogu/ Divulgação
“Caos calmo” venceu o Prêmio Strega,o mais prestigioso da literatura italiana,assim como “O colibri” faria anos mais tarde. As duas obras viraram filme. A adaptação de “O colibri” foi dirigida por Francesca Archibugi e chegou aos cinemas em 2022. A de “Caos calmo”,assinada por Antonello Grimaldi,é de 2008. Nani Moretti interpretou Pietro e protagonizou cena de sexo um tanto selvagem,que acabou classificada como “vulgar e destrutiva” por autoridades católicas.
Fora os prêmios e as adaptações,o autor não vê muitas pontes entre os dois livros e faz questão de diferenciar os protagonistas. Enquanto Marco Carrera,de “O colibri”,é um homem bom e abnegado,Pietro é um egoísta — embora os leitores sejam condescendentes com ele,a ponto de Veronesi ter escrito uma continuação intitulada “Terra rara” (que deve sair no Brasil no ano que vem) para expor a canalhice do personagem.
Os dois romances exploram as diferentes maneiras de sofrer. A vida de Marco é uma sucessão de tragédias e ele reage como um colibri: paira sobre as adversidades,permanece no mesmo lugar enquanto tudo desaba à sua volta,sem nunca sucumbir à indiferença. Pietro espanta por não sofrer a morte da companheira: “aquele tremendo baque” não vem. “Nenhuma dor: continuo me sentindo como alguém que caiu do telhado e,depois de se levantar,apenas tateia o corpo inteiro,sem acreditar que saiu ileso”,diz ele.
— Uma vez,Carmelo Bene (1937-2002),que era um ator e provocador genial,me disse que um amador começa a escrever quando sofre e o profissional para. O profissional sabe que é preciso aproveitar a dor,dedicar-se apenas a sofrer e não fazer mais nada. Acho que ele tinha razão — afirma o escritor. — Eu não escrevo quando estou sofrendo. Quando sofro,eu sofro.
Na obra de Veronesi,a investigação do sofrimento convive com um humor quase pastelão,como num filme italiano de antigamente. Na tensa cena de abertura de “Caos calmo”,quando os irmãos e por pouco não morrem resgatando as duas mulheres da fúria do mar,Pietro tem “a ereção talvez mais memorável da minha vida” (o escritor esclarece que essa parte não aconteceu quando atuou como salva-vidas).
A paternidade é outro assunto que surge em “O colibri” e “Caos calmo”. Cuidar bem da filha,e depois da neta,é a prioridade de Marco Carrera. Pietro usa a filha para justificar suas decisões mais malucas. Em frente à escola,escuta pessoas falando de seus pais. Como um diretor de RH preocupado com o que o pai sindicalista pensaria dele. “Há sempre um pai por trás das satisfações que os homens sentem na vida”,pontifica o protagonista.
Veronesi é pai de cinco filhos. A atenção aos dilemas da paternidade é talvez o que haja de mais autobiográfico na obra de um autor que não se cansa de exaltar a imaginação e se contrapõe a seus pares que só escrevem sobre si mesmos.
— Durante dois anos,criei três filhos sozinho. Não estou fazendo nenhum juízo de valor,foi o arranjo que a mãe deles e eu fizemos depois do divórcio. Minha mãe achou que eu não fosse dar conta. Aprendi a ser pai nesse campo de batalha. Escrevi muito nesses anos em que passei os levando ao médico,à escola. Depois,quando eles foram morar com a mãe e fiquei sozinho em Roma,como todo do tempo do mundo,não tinha energia para escrever — conta Veronesi. — Meu sonho não era ser pai,era ser escritor. Mas acho que,talvez até de forma egoísta,tive que ser pai para ser escritor.
Autor: Sandro Veronesi. Tradução: Karina Jannini. Editora: Autêntica. Páginas: 432. Preço: R$ 87,90.