
Fabricação de canetas de Ozempic na Novo Nordisk A/S,na Dinamarca — Foto: Carsten Snejbjerg/Bloomberg
GERADO EM: 02/06/2026 - 16:07
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A história começa com uma caneta feita para tratar diabetes e obesidade. Mas talvez não termine na balança.
Nos últimos anos,medicamentos como a semaglutida ficaram famosos por ajudarem pacientes a perder peso. Primeiro vieram as imagens de antes e depois. Depois,os debates sobre uso estético,escassez nas farmácias,efeitos colaterais e a transformação de um tratamento médico em fenômeno cultural.
Mas uma surpresa apareceu no consultório.
Alguns pacientes começaram a relatar algo curioso. Não era apenas a fome que diminuía. Era o pensamento em comida que perdia força. O doce na gaveta chamava menos. A taça de vinho no fim do dia deixava de parecer inevitável. O cigarro depois do almoço perdia urgência. Algumas pessoas relatavam até menos vontade de comprar por impulso,beliscar sem fome ou abrir a geladeira como quem procura uma resposta que não está lá.
Era como se alguém tivesse abaixado o volume de uma rádio interna.
Essa talvez seja a parte mais fascinante da história. Por muito tempo,tratamos fome,vício,compulsão e impulso como problemas separados. A comida ficou com a nutrição. O álcool com a psiquiatria. O cigarro com a pneumologia. A obesidade com a endocrinologia. Cada excesso em sua gaveta. Cada comportamento com sua explicação.
O cérebro,porém,não organiza a vida em especialidades médicas.
Por trás de muitos desses comportamentos existe uma rede comum ligada à recompensa. É o sistema que nos faz buscar prazer,repetir experiências agradáveis e aprender o que vale a pena procurar de novo. Ele é essencial para a sobrevivência. O problema começa quando passa a trabalhar alto demais,insistente demais,como um alarme que não desliga.
É aí que entram os medicamentos da família do GLP-1. O GLP-1 é um hormônio produzido no intestino depois das refeições. Ajuda o corpo a regular a glicose,aumenta a saciedade e retarda o esvaziamento do estômago. Por isso,tornou-se uma ferramenta importante no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Mas sua ação não parece se limitar ao estômago e ao pâncreas. Existem receptores de GLP-1 também no cérebro,inclusive em áreas envolvidas com motivação,prazer e impulso.
Em outras palavras: esses remédios não conversam apenas com a barriga. Eles também parecem conversar com a vontade.
Isso não significa que sejam “remédios contra vícios”. A realidade é mais cautelosa do que a manchete gostaria. Estudos observacionais recentes sugerem que pessoas em uso de semaglutida podem ter menor risco de alguns transtornos relacionados ao álcool,cannabis e opioides. Ensaios clínicos começam a investigar esse caminho de forma mais direta. Há sinais promissores,especialmente em pacientes com obesidade e consumo abusivo de álcool. Mas ainda estamos no começo.
E começo de história,em medicina,exige freio.
Nem todo achado vira tratamento. Nem toda associação prova causa. Esses medicamentos têm efeitos colaterais,principalmente gastrointestinais,e não devem ser usados como atalho,moda ou promessa de autocontrole químico. Para várias compulsões,a evidência ainda é preliminar. No Brasil,faltam dados próprios.
Mesmo assim,há uma mudança importante em curso.
Durante décadas,compulsões foram tratadas como falhas de caráter. Quem bebia demais “não tinha limite”. Quem comia sem fome “não tinha força de vontade”. Quem fumava “não queria parar”. Claro que escolhas importam. Ambiente importa. Comportamento importa. Mas a biologia também importa.
A ideia de que um hormônio intestinal possa interferir em desejos,urgências e recompensas mostra que o impulso não mora apenas na moral. Mora também no corpo. Mora em circuitos cerebrais. Mora em sinais químicos que aproximam intestino,metabolismo e comportamento.
Talvez a grande notícia não seja que medicamentos como o Ozempic possam,um dia,ajudar em algumas compulsões. Talvez a grande notícia seja outra: estamos começando a entender que o excesso nem sempre é excesso de desejo. Às vezes,é excesso de ruído.
E quando a medicina aprende a escutar esse ruído,fica mais perto de ajudar o paciente a encontrar silêncio.