
De Bruyne,da Bélgica,tenta finalização e é travado pela zaga do Irã,pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo — Foto: Stu Forster/Getty Images via AFP
GERADO EM: 25/06/2026 - 22:06
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Como milhões de brasileiros,acompanho a Copa do Mundo com o mesmo entusiasmo que me acompanha desde a infância. Poucos eventos conseguem reunir tantas pessoas diferentes em torno de uma paixão comum. Durante algumas semanas,bandeiras,idiomas,culturas e religiões compartilham os mesmos espaços. O futebol cria pontes onde antes existiam distâncias.
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Talvez seja justamente por isso que uma Copa do Mundo revele muito mais do que aquilo que acontece dentro de campo. Em 2022,durante a Copa do Catar,acompanhamos debates intensos sobre o país anfitrião. Muitas críticas foram dirigidas a questões relacionadas a direitos trabalhistas,direitos civis e transparência. O debate é legítimo e necessário em qualquer sociedade.
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Mas,em diversos momentos,a crítica pareceu ultrapassar governos e políticas públicas para atingir algo maior: uma cultura,uma região do mundo e uma religião professada por quase 2 bilhões de pessoas. Não foram raras as ocasiões em que se questionou se um país muçulmano estava preparado para sediar um evento da dimensão da Copa do Mundo ou se os valores de uma sociedade islâmica eram compatíveis com a diversidade característica do torneio.


Quatro anos depois,a Copa acontece nos Estados Unidos,no México e no Canadá. O cenário mudou,mas algumas questões permanecem atuais. O árbitro somali Omar Artan,eleito melhor árbitro africano de 2025 e selecionado pela Fifa para atuar no Mundial,foi impedido de ingressar nos Estados Unidos em razão das restrições migratórias impostas a cidadãos de determinados países.
O caso não foi isolado. A seleção iraniana enfrentou dificuldades para obter autorização de entrada para integrantes de sua delegação,levando a equipe a estabelecer sua base de preparação no México. Também chamou a atenção o caso do atacante iraquiano Aymen Hussein,submetido a horas de interrogatório antes de ser autorizado a entrar no país. O fotógrafo Talal Salah acabou deportado após permanecer detido por mais de dez horas.


Nenhum desses episódios,isoladamente,define uma nação. Tampouco anula as qualidades dos países anfitriões desta Copa. Mas,juntos,eles levantam uma reflexão importante. Em 2022,muitos perguntavam se um país muçulmano era capaz de receber o mundo. Em 2026,talvez devamos formular uma pergunta diferente: o mundo está preparado para receber todos os povos em condições de igualdade?
A questão não é defender governos nem ignorar divergências políticas. Países podem e devem ser criticados quando necessário. O problema surge quando deixamos de enxergar indivíduos e passamos a enxergar apenas rótulos. Quando um atleta é visto antes como cidadão de um país em conflito do que como esportista. Quando uma pessoa é associada às decisões de seu governo apenas por sua nacionalidade ou religião.
O futebol possui uma virtude rara: ele nos lembra daquilo que temos em comum. Quando a bola rola,pouco importa a origem do jogador,a língua que fala ou a fé que professa. O que vemos é talento,disciplina,esforço e superação. É por isso que a Copa do Mundo continua sendo um dos maiores encontros humanos do planeta. Ela nos recorda que somos capazes de torcer lado a lado,celebrar juntos e reconhecer nossa humanidade comum mesmo quando pertencemos a culturas diferentes.
Talvez a principal pergunta desta Copa não seja quem levantará a taça. Talvez seja se aprendemos,finalmente,a enxergar povos inteiros para além dos estereótipos que insistimos em lhes atribuir. Porque,quando isso acontecer,o futebol terá conquistado uma vitória muito maior que qualquer título mundial.
*Ali Zoghbi,brasileiro e muçulmano,é presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil